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Raiva da sociedade sem propósito
This text is in Portuguese, as written.
Nesta manhã, fiz o meu café e tomei enquanto olhava pela janela. Olhando as pessoas, observando tudo, eu vi, ou melhor, percebi, algo insano: o quanto gostamos de nos fazer de vítima enquanto somos claramente os culpados da disfunção da sociedade. Naquele momento, sentado na cadeira da cozinha e enxergando o meu reflexo pela louça suja da sociedade, foi como estar perdendo ou esquecendo alguma coisa que eu claramente tive um dia.
Não tem como se satisfazer vivendo uma mentira ou estar isolado numa caverna. É difícil respirar estando no estômago da besta, não tem como dormir com todo esse ódio acumulado. Com toda a sua geração vivendo nessa jaula, no momento, a compreensão foi de que o certo seria dizer a todos “pegue as suas armas e diga aos seus filhos que hoje você vai quebrar essa prisão!”.
Mas não teria como eu gritar isso, por maior que fosse a euforia que eu senti naquele instante. A realidade é que enquanto eu não consigo nem me olhar no espelho, eu continuo correndo. O que eu realmente gostaria é que alguém me dissesse como eu cheguei aqui. Eu continuo correndo de alguma coisa, e não saberia nem dizer o porquê de eu continuar correndo.
Eu tenho esses pensamentos dentro da minha cabeça que tenho medo de falar a respeito, porque se falarmos sobre isso, não vai ter mais nada para conversarmos sobre. Por isso eu os bloqueei. Pessoas são como alguns cachorros, latem muito e não fazem nada. Se você for como eu, provavelmente tenta encontrar alguma sanidade longe de todos os problemas da humanidade.
Eu sei que eu não sou o único que sente a dor de crescer e que, ao olhar para trás, entende o tanto que realmente tinha antes. Parece um ciclo sem fim. Mas por um instante parece que o meu reflexo me encara seriamente e diz “Não tema o que você se tornou, pegue o seu orgulho do chão e prossiga sem medo”.
Talvez seja isso que eu queria, um propósito para toda essa raiva, toda essa complacência, “Se rebele hoje sem segurar, deixe fluir a sua violência hoje a noite. Hoje à noite seus demônios vão sair para brincar, todo o seu ódio vai ir embora, esteja pronto para isso.” Continuou dizendo aquele reflexo, sem mais. Por mais tentador que parecesse, eu sabia que aquele não era eu.
Você já viu um cego guiar outro? Não teria a menor chance de chegar a lugar algum. Mas aquilo ficou na minha mente, e por uma última vez antes de desaparecer, aquele reflexo me disse “Tenha cautela e preste atenção, veja que não é o que parece ser, você não consegue se libertar da fera, seja sorrateiro e devagar, mas preciso, quando a hora chegar, esteja pronto para agir”.
De certa forma faz sentido. Afinal de contas, você foi ensinado a ter medo de escuro, mas agora prevalece nas trevas do seu coração, mesmo sem querer. O tempo muda toda situação, e cada situação dá uma perspectiva diferente. Nem todo caminho é feito de linhas retas e nem tudo é preto e branco. Assim como existem várias curvas inesperadas e pedras pelo caminho, há uma variedade enorme de cores que compõem todas as coisas.
Mas ao terminar o meu café e me levantar da minha cadeira, novamente não consigo nem me olhar no espelho. Não sei se as vozes que escutei foram de algum cachorro latindo na rua, ou toda a repressão dessa raiva acumulada tomando forma e querendo sair, mas só mais uma vez me pergunto, “como fui chegar aqui?”.
Texto baseado nas músicas Mirror e Riot do Arrested Youth
