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Whiskey e cigarros

Monday, August 29, 2022era two2 min read

This text is in Portuguese, as written.

  • Arte do texto 241/365
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O que combina mais do que um maço de cigarros e um copo de whisky para escrever sobre mágoas de amor? A deselegância pendendo para a decadência clama para que a bagunça interna dos sentimentos veja a luz do dia num ambiente semelhante, sujo e fétido, onde a esperança já não faz mais sua morada há anos.

A reminiscência das boas memórias traz à tona dores que estavam escondidas – e por vezes tinham sua existência desconhecida até então –, mas são altamente anestesiadas pelo efeito do álcool, permitindo a escrita das palavras com sua devida eloquência, transpondo seus sentimentos em cada sentença, mas se distanciando o máximo que pode, para não sofrer ainda mais.

A cada tragada em meio a fumaceira que já está no ar, palavras cruéis se formam, uma de cada vez. Talvez seja injusto dizer isso das palavras, afinal, elas estão apenas fazendo seu trabalho, que é transmitir informação. O que realmente é cruel são os significados que carregam. Escrever “saudade” traz um peso incalculável para um coração ferido. Outras, como “amor” e “lembranças”, só fazem com que a tristeza veja a luz do dia mais uma vez, trazendo à tona o questionamento sobre a veracidade do tal do “amor”. Se ele existe, como pode algo tão bonito se tornar em um horror?

Com o auxílio da imaginação, situações que nunca aconteceram são simuladas da forma mais dolorosa possível. Frases nunca ditas se chocam com a realidade de momentos que existiram, e nessa colisão uma linha do tempo é mentalmente criada, formando um universo de possibilidades jamais exploradas. A dúvida de como seria o desenrolar de cada situação é o começo de um ciclo de angústia criado pela própria imaginação, dando luz à famosa agonia do “e se tivesse sido diferente?”.

De todos os odores e visuais magníficos que compuseram uma realidade há pouco tempo, a única coisa que sobrou agora foi o fedor do cigarro e do álcool saindo pelos poros de um corpo cansado. Em meio a uma grande sujeira de bitucas e cinzas, em adição a marcas do fundo de um copo que estava condensando e secou, deixando sua superfície melada e grudenta. Espelhando um belo sorriso que existiu um dia, mas que foi transformado por uma expressão fria, triste e sem vida.