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Monólogo 20 de 2022 – Sinto falta dos dias simples

Sunday, August 28, 2022era two5 min readmonologue

This text is in Portuguese, as written.

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Note from the Monologues series

Todos os dias terminados em 0 (ou algo assim) terão textos de cunho muito pessoal aqui na página. Não há necessariamente um objetivo firmado e concreto nos textos desses dias. Como diria um amigo meu: “Conheça o autor e entenderá a sua obra”.

Nesse dia de chuva eu olho pela janela e começo a me lembrar de um passado que agora me parece muito distante e até irreal. Vejo como eu sinto falta dos dias que eu tinha um sorriso estampado no rosto, que eu não me preocupava tanto com coisas tão pequenas e que eu tinha a inocência (ou a cabeça dura o suficiente) de achar que conseguiria sempre resolver tudo sozinho.

Nessa época eu não era tão cauteloso com tudo que fazia, e deve ser exatamente por isso que não estava sempre exausto. Só queria seguir a minha paixão, meu coração, e buscar fazer o que eu achava certo, que no meu caso era fazer o bem por onde passasse e ajudar a todos que pudesse.

Eu andava de bicicleta por todos os lugares que eu queria ir, sem ficar ponderando tanto sobre a minha vida, e conseguia me divertir com as coisas mais simples. Eu não ficava me perguntando se eu era alguém legal ou uma pessoa que ninguém gosta. Eu sinto falta desse tempo que eu não ficava agoniado pensando sobre dinheiro ou sobre perder meu emprego, que eu não tinha dívidas e que não precisava me preocupar se as contas fecham no final do mês ou não. Sinto falta de quando eu não ia para a cama de noite sentindo um nó no estômago que nunca me deixa em paz.

Olhando a chuva lá fora e o céu nublado e escurecido, observando uma garrafa quebrada no chão da rua, me pergunto... o que aconteceu comigo? Quando foi que comecei a acreditar que eu não tinha nenhum valor e comecei a questionar o meu próprio propósito de vida? Duvidando que eu poderia atingir os meus sonhos e fazer o que eu realmente queria, me perguntando quem eu deveria ser, com a felicidade fora do meu alcance e com um medo constante de retomar minha vida.

Quando foi que me tornei refém da minha própria história em que eu preciso me livrar de coisas que eu sei que me fazem mal, mas que são muito difíceis de largar? De saber que certas coisas que te machucam profundamente estão presentes na sua vida, pois elas te ajudam a alcançar os seus sonhos.

Saudades dos dias que eu não era tão apagado da minha própria vida, como se o livro que estivesse escrito a minha história estivesse com as palavras sumindo, fracas... Sinto falta de quando o amor não era algo invasivo e até mesmo assustador, e que eu abraçava de corpo e alma. Saudades desse tempo que eu era tão inocente e não estava vivendo em constante dor e agonia.

Olhando pelos estilhaços de vidro no chão se movendo com a chuva, tento entender: quando que eu quebrei e fui dominado? Qual foi o momento que eu cavei minha própria cova, perdi a fé em mim mesmo e quem sabe até mesmo no mundo, e criei um substituto que se parecia comigo, agia da mesma maneira, mas que de alguma forma, não era mais eu.

Agora o que eu sinto é essa nostalgia de certos momentos e dias que eu tive na minha vida. Eu sinto falta dos dias que eu me sentia amado, dos risos que eu dava quando criança sem ligar para mais nada. Acho que o que eu sinto falta mesmo era de quando os tempos eram mais simples, de como eu me sentia feliz e vivo. Eu daria tudo para sentir aquilo outra vez...

Na minha própria mente é como se eu estivesse de frente comigo mesmo, mas a pessoa que eu encaro é justamente aquela que eu sinto falta. E ele me olha e grita: “Me dê a minha mente de volta!”. E eu sei bem do que essa voz está falando. É da mente que me dizia que eu tinha valor depois de cair, que dizia que eu tinha valor mesmo quando saia da linha e procurava uma maneira de corrigir os erros feitos pelo caminho. De quando a minha imaginação não estava presa em um molde e era livre para voar.

- “ME DEVOLVA A MINHA MENTE!”, Grita mais uma vez.

Aquela mente antes de ser sequestrada, de ser levada para um lugar cheio de limitações dizendo que eu não posso, que não consigo. De quando não estava tão ocupada tendo que lidar com todo meu passado, fazendo com que eu tenha que dissecar todos os meus problemas, sentindo tudo aquilo mais uma vez, repassando como um filme em um loop até que eu fique depressivo.

Eu sei que eu sou abençoado e enxergo várias coisas pelas quais eu sou muito grato hoje, mas são duas faces numa mesma moeda, pois também sou amaldiçoado, e essa cruz eu carrego comigo com um peso muito grande. De longe eu escuto a minha versão mais nova gritando mais uma vez: “Me leve de volta para quando eu era feliz e não estava fingindo!”, da voz abafada no fundo da minha cabeça querendo voltar para o tempo que eu era vulnerável, mas não via isso como uma forma de fraqueza ou algo que não é atraente. Do tempo que eu tinha emoções, antes de aprender a mascará-las

Dando basta, paro de olhar para a chuva caindo pela janela. Me viro e tomo meu rumo, esperando que o meu eu mais novo no fundo do meu cérebro me perdoe e entenda que eu não sabia o que eu estava procurando, que eu não sabia que quanto mais velho eu ficasse, mais eu perderia o controle de tudo e teria que lidar com toda essa bagagem que se acumulou durante os anos que foram passando.

É muito triste quando tudo que você acha que é estável desmorona, quando tudo vira pó e não sobra nada, que tudo que você pensava se transforma em motivo de tristeza, te puxando com força e levando mais ao fundo do poço. Triste, saio me perguntando se alguém mais passa por isso também e várias questões passam pela minha cabeça:

Algum dia vamos nos sentir como nós imaginamos que iríamos no futuro?

Algum dia vamos finalmente nos adaptarmos de verdade com esse mundo?

Algum dia vamos nos sentir como nos sentíamos antes?

Enquanto busco encontrar uma resposta, aquela voz do meu eu antigo grita, já sem forças, mais uma vez, como faz todas as vezes que deliberadamente tento parar de pensar sobre isso: “Me leve de volta! Me leve de volta... me leve de volta...”.

Texto Baseado na música do NF – I miss the days

Música boa pra caralho

Alisson David Frangullys 30/AGO/2022 · 01:37 (GMT-5) texto para o dia · 28/AGO/2022