WallAugustaprendizado e senso crítico
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Último suspiro
This text is in Portuguese, as written.
Estou a 7 centímetros da faca afiada. Ao menos ela parece bem afiada, ainda mais com essa luz reluzindo na lâmina diretamente para os meus olhos. A foto dessa faca, segurada pela luva escura do sujeito visivelmente irritado na minha frente daria um bom registro, mas duvido muito que ele fosse permitir pegar a minha câmera. Pensando melhor, acho que nunca mais vou tirar nenhuma outra foto por toda a minha vida, ou o que resta dela agora.
E pensar que eu estava preocupado com a lente que teria que comprar para fotografar o casamento de amanhã, acho que eles vão ter que contratar outro profissional para registrar o momento mais feliz da vida deles juntos. Apesar de ser uma inconveniência, eu tenho certeza de que vão conseguir encontrar alguém em cima da hora, mesmo que o preço praticamente dobre pela falta de aviso prévio, mas fazer o quê, essas coisas acontecem.
Será que as palavras desse sujeito à minha frente serão realmente as últimas que ouvirei? Uma espécie de grunhido vociferando - “me passe tudo que você tem, já!”. E em pensar que vou passar realmente tudo que tenho para ele, como uma forma reversa de perder a virgindade com esse desconhecido, pois ao invés de ser as minhas primeiras vezes, serão as minhas últimas, nessa rua mal iluminada. Minha última respiração, minha última vez escutando outro ser humano, meu último pensamento e minhas últimas lágrimas. Pois é, mas agora não adianta chorar, nós dois sabemos bem o que vai acontecer em seguida.
Eu deveria ter me preocupado menos com as contas desse mês ou em ter que comprar a lente nova da minha câmera, já que a antiga quebrou por causa do meu cachorro parecendo um furacão dentro de casa. Agora me sinto muito mal por ter gritado com ele e ficado extremamente irritado, achei que seria o fim do mundo ter que correr encontrar uma outra lente para poder trabalhar amanhã e pagar tão caro mesmo não tendo dinheiro algum, apenas um restante de crédito que o meu banco deu para poder sobreviver até que os pagamentos caíssem na conta.
Dizem que no final da nossa vida vemos um replay com todos os momentos que vivemos até o fim. Será que isso vai acontecer comigo? Estranhamente só estou conseguindo pensar no café da manhã de hoje. Foram ovos, uma omelete com tomate, queijo e em vez de usar óleo e sal, coloquei um pouco de manteiga para dar o gosto, junto com um pouquinho de leite. Eu queria poder dizer que ficou delicioso, mas estava distraído mexendo no celular e acabei queimando embaixo. Não gostei muito, mas agora me parece a melhor refeição do mundo e já estou sentindo falta dela.
Não só do café da manhã, mas da brisa leve desse começo de primavera, nem tão frio, nem tão quente. Do coração pulsando tão forte, indicando que eu estou vivo. Daria tudo agora para poder ter mais uma chance. Deixaria de me preocupar tanto com certas coisas, como as minhas contas a serem pagas em cima da hora, das pessoas mal-educadas que cruzaram meu caminho quando pegava a condução... por que a grosseria delas me irritava tanto?
Deveria ter deixado meu orgulho de lado e ter ligado pra ela dizendo que eu sentia falta. Se ela dissesse que não queria nada ou que não se importava, pelo menos teria sabido o quanto eu me importava e o que eu sentia. Agora é o fim e nada disso vai ter mais nenhuma chance de acontecer.
Tudo parece estar em câmera lenta, como se as câmeras do universo estivessem filmando a 10 mil quadros por segundo. Consigo sentir o peso do tempo afetando a resistência do meu corpo enquanto vou entregando minha carteira com o meu celular para este desconhecido. É como se eu estivesse revisando essa cena na hora da edição, tentando não perder nenhum segundo precioso e criar um suspense, mesmo sabendo que acontecerá, imaginando como seria a primeira vez vendo esse vídeo.
Mas eu vi o rosto desse sujeito, mesmo estando muito escuro e eu não tendo nenhum detalhe da sua face, ainda mais com todo esse medo confundindo a minha cabeça. Ele sabe que eu vi, e ele sabe que eu sei que ele sabe. Não tem escapatória. O clima está agradável essa noite, mas eu deveria ter pegado outra rua para ir para casa nesse horário. Eu sempre soube dos riscos, mas nunca me aconteceu nada. Acho que finalmente a minha sorte disse ‘basta’.
Não sei direito o que aconteceu, como se estivesse esquecido de incluir parte do clipe no vídeo, só sei que estou lentamente chegando ao chão, sentindo um líquido quente escorrendo do meu pescoço enquanto caio, e vejo as costas do homem usando a jaqueta escura correndo. Acho que aquela faca estava realmente afiada, não era apenas a iluminação perfeita da lua refletindo o sol.
Cara, eu realmente queria comer mais uma omelete agora. Pensando bem, aquela foi a melhor omelete que eu comi na minha vida. Queria ter certeza de que o meu cachorro iria comer hoje e dar um abraço nele pedindo perdão por ter gritado e sido frio com ele por causa da lente. ele nem deve saber porque eu fiquei tão irritado, sempre quis me dar amor e eu fui babaca com quem sempre me amou incondicionalmente. Realmente, eu fiz tudo errado.
Acho que finalmente caí no chão, está tudo escuro e não tenho certeza de mais nada, apenas de que o piso está bem mais frio do que o clima, ou se estou perdendo os sentidos e não estou mais falando nada com nada. Só sei que eu sinto falta dela e do meu cachorro. Espero que a minha família o ajude logo e dê muitas omeletes para o meu amor. Não sei por que me importei tanto com tão pouco e me importei tão pouco com o importante.
Queria poder ter feito diferente, mas meu tempo acabou aqui, e tudo está ficando escuro, talvez eu tenha que aumentar o f stop para poder ver melhor, mas no fundo sei que não é por causa da iluminação que tudo está escuro. Meu cachorro e minha omelete, meus sentidos tão aguçados, minha mente tão inquieta e perturbada. Mas eu sei que esse último tic do relógio será o último que vou ouvir. Não sei de onde ele veio, pois não estou usando relógio, mas à distância escuto o último som do dia. E parece que finalmente a minha hora chegou, aquele homem tirou o meu último suspiro.
Alisson David Frangullys 26/AGO/2022 · 23:34 (GMT-5) texto para o dia · 15/AGO/2022
