WallAprilperda e abandono

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Vício do MOBA

Tuesday, April 12, 2022era one7 min read

This text is in Portuguese, as written.

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Esse texto é para você que joga muito MOBA (apesar de ser também válido para MMO, FPS e qualquer outro gênero), e apesar de ser um tanto específico para esse público, espero que esse texto te encontre bem e seja útil de alguma forma.

Uma pequena contextualização antes de ir direto ao assunto: MOBA é um estilo de jogo online que envolve estratégia e ação em tempo real. Os jogos League of Legends (LOL) e DOTA 2 são os mais conhecidos e jogados nesse estilo.

O que provavelmente é tão atrativo em jogos assim, além da estratégia inicial com os picks e a quantidade de opções que se têm acesso, é a execução dessas estratégias e a emoção que gera pela competitividade, independente da posição que se escolhe jogar. Vai dizer que, quando você faz um Rampage (ou penta kill, no caso do LOL), não é uma das melhores sensações que o jogo pode trazer? Ou, caso você esteja de suporte, alimentar o seu carry (ADC) e fazer com que ele cresça e acabe com o jogo todo com a sua ajuda (apenas administrando o controle que tem na partida).

Depois de muita pesquisa, eu comecei a entender o porquê desses jogos serem tão fascinantes. De uma forma resumida, o seu cérebro não entende a diferença do real e virtual, e as emoções que você sente enquanto joga (adrenalina) durante as teamfights, o medo de tomar um gank surpresa, a felicidade por ter ganho uma partida disputada, todas essas sensações parecem reais, como se estivesse participando de um esporte radical na vida real mesmo. É praticamente ter dopamina sendo jorrada no cérebro.

Mas uma coisa fica clara para quem joga muito esse tipo de jogo: ele deixa de ser divertido com o passar do tempo. No começo, quando você ainda está aprendendo o que cada personagem faz, as possibilidades parecem ilimitadas (e se estiver jogando com um amigo enquanto está aprendendo, surgem as melhores memórias do jogo). Mas chega um ponto que você tem a noção geral do jogo, posicionamento e até mesmo todas as habilidades (e uma noção temporal do cooldown de cada uma), então o que deveria ser divertido, se torna um “trabalho”.

O que eu quero dizer com “trabalho” é que você acaba por ter o foco de ganhar acima da diversão, buscando o resultado final ao invés de aproveitar e se divertir no processo, e é aí que as coisas começam a ir ladeira abaixo. Já que esse tipo de jogo tem uma curva muito grande de aprendizado, quando você atinge o topo, dá uma sensação de desperdício por ter usado tanto tempo para aprender a jogar, e agora que sabe, parar (mesmo que não seja tão divertido quanto antes).

E é nesse momento que você começa a perceber um grande problema dos MOBAS: o vício. Essa é uma situação mais séria do que parece (vai dizer que não parece tosco considerar que é viciado em um jogo online?), mas essa perspectiva vem com o tempo. Qualquer um que prometeu a si mesmo que nunca mais ia jogar tal jogo, mas estava online mais uma vez na próxima semana (e isso perdurou toda a semana), pode confirmar isso. Esse vício tem vários motivos para acontecer e vários estudos sugerem que essa dependência é tão real quanto a de um usuário de cocaína, pois afeta diretamente o sistema de recompensa do cérebro, ou seja, é um problema sério.

Independente de qual seja o motivo, entenda o que é vício: é quando você quer parar de fazer alguo que está te prejudicando, mas você não consegue. Se você nunca deixou de fazer algo para jogar seu MOBA, como atividades escolares, exercício físico, sair de casa ou qualquer outra coisa, esse texto não é para você, mas eu sinto que não é o caso da maioria que joga há anos os mesmos MOBAS e MMOS.

Se durante o jogo, você se estressa mais do que se diverte, e mesmo ganhando fica irritado e nervoso, qual é o ponto de continuar jogando? Um jogo foi feito para você se divertir e passar o tempo livre. Se está procurando tempo para jogar e mesmo assim mal consegue se divertir com ele, qual é o propósito? Se a cada dez partidas, uma é divertida, por que continuar jogando o mesmo jogo?

Outro ponto que merece atenção é a ilusão de se tornar um jogador profissional. A verdade é que a grande maioria não sai da média de MMR (ou ELO), e até os que estão entre o top 500 têm dificuldades enormes em se tornarem profissionais. Tornar isso um trabalho exige mais dedicação e esforço do que apenas jogar e enquanto alguns tornam isso uma realidade, a maioria tem apenas esse desejo inerte e a ilusão de que tem as mesmas capacidades.

O que existe, contudo, é uma grande perda de tempo com esses jogos e um enorme potencial de afundar a própria vida. Para pôr em perspectiva, um curso superior tem cerca de 2.080 horas de duração (durante 4 ou 5 anos de estudo). Para quem joga MOBA há muito tempo (principalmente DOTA, pois consegue ver a quantidade de horas jogadas no perfil da Steam), fica evidente que esse número de horas jogadas “não é tão grande” assim (eu tenho mais do que 2 graduações e mestrado em tempo equivalente de jogos de DOTA 2, por exemplo).

A quantidade de horas usadas em relação a outras atividades é irrelevante quando estamos contando apenas o tempo usado para lazer. É um problema, entretanto, se você está deixando de fazer outras atividades para continuar jogando (como alguém que larga a faculdade por conta disso, ou deixa de ir dormir num bom horário, tendo assim um resto de dia miserável). A comparação real está na diferença de diversão que você tem entre estar jogando 10 horas de MOBA ou usar essas mesmas 10 horas para jogar outro tipo de jogo (talvez um single player ou uma campanha de outro jogo com algum amigo). Você tem o mesmo nível de divertimento fazendo as duas coisas?

Esse texto não é sobre quanto os MOBAS são maus ou algo do tipo, mas sim um alerta para que você reconheça caso tenha um problema com jogos e precise procurar arrumar isso na sua vida, principalmente tomando ações construtivas para se livrar desse vício. Muitas consequências ocorrem a longo termo e têm laços fortes com o vício nos jogos, como a dificuldade de manter a concentração, falta de vontade de fazer outras atividades, negligência com a própria saúde física e higiene.

Eu tenho uma relação de amor e ódio com o DOTA 2 há muito tempo. Tenho certeza de que aprendi muito com ele, tive momentos muito divertidos e inclusive fiz amizades que mantenho até hoje. Mas isso foi parte desse meu passado, e querer reviver esses sentimentos e nostalgia é apenas mais uma parte do vício, pois sei que tais momentos não vão voltar e nunca mais vai ser tão divertido quanto já foi um dia, por mais que eu queira isso.

Lentamente, o DOTA 2 se tornou uma ferramenta para deliberadamente gastar meu tempo. Mesmo que eu tenha muitas coisas para fazer, é muito mais fácil fingir que esqueci dos meus afazeres, procurar a próxima rankeada e repetir o processo até a hora de ir dormir (e me culpando por ter jogado, sem ter feito o que eu deveria ter feito).

Esse jogo deixou de ser divertido há muito tempo e quando percebi que a dependência que eu mesmo criei estava muito forte, ao tentar romper, tive sérios efeitos de abstinência. Então entendi a seriedade do que eu estava envolvido. As pessoas ao meu redor, que diziam que eu jogava demais, no final das contas estavam certas, mas era eu que não queria ouvi-las.

O mais triste é que a maioria dos jogadores, a longo termo, sabem o quão destrutivo os MOBAS podem ser, mas sempre estão procurando aquele 1 dentre 10 jogos que dão aquele êxtase derradeiro que o jogo pode fornecer. Mas na verdade, sabem que não vale a pena. É a busca pelo doce veneno correndo nas veias pela sensação já conhecida de prazer que só vai trazer dor.

Tem diversas coisas que se pode fazer para diminuir essa quantidade de tempo que se desperdiça com esses jogos, mas a ação mais importante que se pode tomar é reconhecer o problema que se tem, e ter a vontade de mudar isso.

Alisson David Frangullys 11/ABR/2022 · 17:35 (GMT-5)