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Historias para contar

Wednesday, April 6, 2022era one4 min readcarousel

This text is in Portuguese, as written.

Eu me lembro quando estava finalmente entrando na minha vida adulta, isso é, fazendo meus 19 anos, e tinha algo que já há algum tempo me incomodava bastante: eu sentia que não tinha nenhuma história de vida para contar. Para mim, naquele momento, uma boa história seria algo que eu pudesse contar numa roda de amigos (ou num bar), e as pessoas que estivessem ali, estariam curiosas sobre o assunto e motivadas a continuarem ouvindo. Eu não tinha nenhuma história que se encaixava assim, não tinha nenhuma aventura, nem feito nada incrível ou especial.

Visto que, naquela época, a minha vida toda eu tinha apenas estudado e nunca feito um trabalho remunerado para outras pessoas fora da minha família, as minhas experiências eram bem limitadas ou tristes demais para compartilhar e gerar interesse. Afinal de contas, não é todo mundo que quer ou se importa de ouvir a história de sofrimento amoroso ou familiar de alguém.

Esse incômodo me fazia questionar se eu realmente estava vivendo a minha vida ou se eu chegaria na velhice com a mesma perspectiva de que eu não tinha feito nada de legal e relevante que tivesse valor o suficiente para contar para alguém e fazer a pessoa se interessar pela história, e se eu deveria mudar a forma como eu estava vivendo e ser mais proativo.

Eu acho que esse pensamento é comum para as pessoas mais “tranquilas”, ou seja, pessoas mais introvertidas, que não gostam muito de sair e evitam drogas e álcool, visto que em lugares mais “festivos” – como baladas e bares – os frequentadores são mais extrovertidos e mais coisas diferentes acontecem, criando assim histórias inusitadas.

Esse pensamento permaneceu por alguns anos, até eu começar a colocar em perspectiva algumas coisas e mudar essa linha de raciocínio. Para tranquilizar aqueles que passam pelo mesmo pensamento agora, saiba que com o passar do tempo, a sua vida vai mudando, e novas histórias vão se formando, já que cada coisa tem o seu momento e a sua jornada vai acontecendo conforme você vai caminhando pela estrada da vida.

É importante sim fazer com que as coisas aconteçam com você ao invés de esperar que elas simplesmente aconteçam – isso é, ser mais ativo do que reativo -, e que você tenha mais experiências em geral. Isso não quer dizer que você tenha que fazer coisas que não queira, ou que sejam contra a sua moral, mas sim que busque coisas do seu campo de interesse e seja mais ativo nelas.

Com o passar do tempo, vai ver que tem certas histórias que você não vai se alegrar de terem acontecido e que a um nível consciente, preferiria esquecer e seguir adiante (mesmo sabendo que isso seria algo ruim, como discutimos no texto 63 e 29). Mas, no final de tudo, elas se tornam memórias mais amigáveis para serem partilhadas.

Em relação às histórias em si, ficam duas percepções que me fizeram refletir. Uma delas é a seguinte: tão importante quanto (talvez até mais importante) a história em si, é como você conta ela. Uma história pode ser muito boa, mas se você contá-la de um jeito ruim, ninguém vai ter interesse de ouvir e achará um tédio, da mesma forma que uma história mais simples pode ser contada de um jeito excepcional, gerando muito interesse de quem ouve.

Desde a adolescência, eu costumava recontar as histórias do meu amigo de escola Isaque, que eram muito... interessantes. Demorei para perceber que por anos eu vinha treinando essa habilidade, e o quão isso é importante. Eu recomendo que todo mundo pratique isso (principalmente se você acha que não tem boas histórias para contar), pois é uma forma de aprender a se comunicar mais efetivamente.

E, para finalizar o texto, a segunda percepção: quando você vive uma vida que gosta, e está feliz consigo mesmo, certas coisas não são tão importantes assim. Extrapolando, pense o seguinte: se você é extremamente feliz no seu relacionamento, é importante ter uma história de que, no carnaval, você beijou mais de 10 pessoas em um dia? Essa relatividade bate junto com os seus valores e quanto mais feliz você for com a sua vida, menos relevante muita coisa se torna.

Não se preocupe em ter histórias para contar, foque na narrativa das histórias e como você interage com as outras pessoas. Viva uma vida plena, que as histórias aparecem, e quando elas aparecerem, você vai estar preparado com boas habilidades sociais e discursivas.

Alisson David Frangullys 08/ABR/2022 · 14:14 (GMT-5) texto para o dia · 06/ABR/2022