WallAprilperda e abandono
096/365
Historias para contar
This text is in Portuguese, as written.
01 / 03
Eu me lembro quando estava finalmente entrando na minha vida adulta, isso é, fazendo meus 19 anos, e tinha algo que já há algum tempo me incomodava bastante: eu sentia que não tinha nenhuma história de vida para contar. Para mim, naquele momento, uma boa história seria algo que eu pudesse contar numa roda de amigos (ou num bar), e as pessoas que estivessem ali, estariam curiosas sobre o assunto e motivadas a continuarem ouvindo. Eu não tinha nenhuma história que se encaixava assim, não tinha nenhuma aventura, nem feito nada incrível ou especial.
Visto que, naquela época, a minha vida toda eu tinha apenas estudado e nunca feito um trabalho remunerado para outras pessoas fora da minha família, as minhas experiências eram bem limitadas ou tristes demais para compartilhar e gerar interesse. Afinal de contas, não é todo mundo que quer ou se importa de ouvir a história de sofrimento amoroso ou familiar de alguém.
Esse incômodo me fazia questionar se eu realmente estava vivendo a minha vida ou se eu chegaria na velhice com a mesma perspectiva de que eu não tinha feito nada de legal e relevante que tivesse valor o suficiente para contar para alguém e fazer a pessoa se interessar pela história, e se eu deveria mudar a forma como eu estava vivendo e ser mais proativo.
Eu acho que esse pensamento é comum para as pessoas mais “tranquilas”, ou seja, pessoas mais introvertidas, que não gostam muito de sair e evitam drogas e álcool, visto que em lugares mais “festivos” – como baladas e bares – os frequentadores são mais extrovertidos e mais coisas diferentes acontecem, criando assim histórias inusitadas.
Esse pensamento permaneceu por alguns anos, até eu começar a colocar em perspectiva algumas coisas e mudar essa linha de raciocínio. Para tranquilizar aqueles que passam pelo mesmo pensamento agora, saiba que com o passar do tempo, a sua vida vai mudando, e novas histórias vão se formando, já que cada coisa tem o seu momento e a sua jornada vai acontecendo conforme você vai caminhando pela estrada da vida.
É importante sim fazer com que as coisas aconteçam com você ao invés de esperar que elas simplesmente aconteçam – isso é, ser mais ativo do que reativo -, e que você tenha mais experiências em geral. Isso não quer dizer que você tenha que fazer coisas que não queira, ou que sejam contra a sua moral, mas sim que busque coisas do seu campo de interesse e seja mais ativo nelas.
Com o passar do tempo, vai ver que tem certas histórias que você não vai se alegrar de terem acontecido e que a um nível consciente, preferiria esquecer e seguir adiante (mesmo sabendo que isso seria algo ruim, como discutimos no texto 63 e 29). Mas, no final de tudo, elas se tornam memórias mais amigáveis para serem partilhadas.
Em relação às histórias em si, ficam duas percepções que me fizeram refletir. Uma delas é a seguinte: tão importante quanto (talvez até mais importante) a história em si, é como você conta ela. Uma história pode ser muito boa, mas se você contá-la de um jeito ruim, ninguém vai ter interesse de ouvir e achará um tédio, da mesma forma que uma história mais simples pode ser contada de um jeito excepcional, gerando muito interesse de quem ouve.
Desde a adolescência, eu costumava recontar as histórias do meu amigo de escola Isaque, que eram muito... interessantes. Demorei para perceber que por anos eu vinha treinando essa habilidade, e o quão isso é importante. Eu recomendo que todo mundo pratique isso (principalmente se você acha que não tem boas histórias para contar), pois é uma forma de aprender a se comunicar mais efetivamente.
E, para finalizar o texto, a segunda percepção: quando você vive uma vida que gosta, e está feliz consigo mesmo, certas coisas não são tão importantes assim. Extrapolando, pense o seguinte: se você é extremamente feliz no seu relacionamento, é importante ter uma história de que, no carnaval, você beijou mais de 10 pessoas em um dia? Essa relatividade bate junto com os seus valores e quanto mais feliz você for com a sua vida, menos relevante muita coisa se torna.
Não se preocupe em ter histórias para contar, foque na narrativa das histórias e como você interage com as outras pessoas. Viva uma vida plena, que as histórias aparecem, e quando elas aparecerem, você vai estar preparado com boas habilidades sociais e discursivas.
Alisson David Frangullys 08/ABR/2022 · 14:14 (GMT-5) texto para o dia · 06/ABR/2022


