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090/365

Bem e o mal

Thursday, March 31, 2022era one7 min read

This text is in Portuguese, as written.

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Todos temos um lado obscuro que escondemos, e que não temos nem um pouco de orgulho de termos em nós. Seja por causa da educação que nos foi dada, pela religião ou até mesmo por consequências das leis, temos receio de sermos maus e negamos esse lado que habita em nós.

Essas questões não têm a atenção que merecem no dia a dia, e o medo de ser reprimido ao admitir que dentro de si não moram apenas sentimentos benevolentes é presente a todo instante (mesmo que seja um absurdo considerar isso uma possibilidade), afinal de contas, quem confiaria em alguém que admite por vezes ser mal intencionado?

Nos esforçamos para que esse lado esteja sempre controlado, e esses demônios sempre trancados. Cada um conhece o lado sombrio que tem e que às vezes se manifesta, dando vazão ao egoísmo, à inveja, à ira e ao preconceito. Apesar da grande maioria negar que exista isso dentro de si, todo mundo tem um lado bom e um lado ruim. O bem e o mal são dois opostos complementares, como o dia e a noite, o quente e o frio, e o masculino e o feminino.

O símbolo do Yin Yang, da filosofia chinesa, é um dos representantes dessas duas energias opostas que não vivem uma sem a outra. Na parte de cor branca, há um pouco da parte de cor preta, assim como na parte preta, tem um pouco da parte branca. Os dois sempre coexistem, e a extinção de um significa o desaparecimento dos dois, e mesmo com a impermanência de tudo, ambos lados tendem ao equilíbrio. Cada um tem o seu demônio interior escondido no fundo.

Neste conceito, se colocarmos a bondade e a maldade numa mesma linha (vamos chamá-la de linha moral), em que o meio representa a neutralidade (existe mesmo neutralidade?), onde a grande parte da população estaria? Pendendo mais para o bem ou para o mal? Isso depende dos valores e da cultura local? Onde você estaria nessa linha? Independentemente de onde, a sua situação pode mudar a qualquer momento, visto que ela não é permanente.

Não adianta fingir que não existe esse lado escuro, ora ou outra você vai ter que encarar essa realidade e tomar uma decisão que envolva este lado. Mas, até certo ponto, fica difícil de compreender o que seria o bem e o mal. Nem todas as situações têm uma resposta simples, afinal de contas ,nem tudo é preto ou branco, há também nuances de cinza, pois cada situação é única.

Alguém que sempre faz o bem, mas tem uma vontade incessante no coração de fazer o mal, é realmente uma pessoa boa? Da mesma forma, alguém que está sempre prejudicando o próximo, mas tem toda a vontade e intenção de fazer o bem, é uma pessoa má?

E, se considerarmos uma pessoa que ama fazer o bem, e está sempre fazendo o bem, ou uma pessoa que sente deleite em fazer o mal, e busca o caos em todas as suas ações, seriam essas pessoas verdadeiramente boas e ruins, respectivamente? E onde se enquadram as pessoas das situações anteriores?

Fazer o bem por ter sido educado dessa maneira ou por ter medo de consequências maiores, realmente te faz ser uma pessoa boa? Fazer o mal por ter a melhor opção na situação, te faz uma pessoa ruim? A culpa redime alguém das suas maldades? A impenitência anula boas ações?

É certo fazer o mal para proteger alguém? Seria mesmo “fazer o mal” quando estamos falando de proteção? Os meios justificariam os fins e as ações justificariam os motivos?

Você salvar a vida de uma pessoa, mas acabar destruindo a vida de outra, te torna um herói ou um vilão? Se colocar em primeiro lugar, ao invés de sempre estar ajudando o próximo com toda prioridade, faz com que você seja egoísta?

Realmente, só poderíamos ver a verdadeira face de alguém em situações críticas, como aquele que não tem nada a perder e aquele que não sofre consequência alguma dos seus atos? Como você reagiria nestas situações? Isso é, se tudo que tem um significado para você deixasse de existir, e você não precisasse se importar com mais nada, você seria benevolente nos seus atos? Se não houvesse consequências nenhuma para os seus atos, sejam eles quais forem, todas as suas ações seriam virtuosas?

Os questionamentos são diversos, e a opinião de cada um diverge em cada situação, mas o motivo por trás da resposta geralmente depende do que se valoriza mais, se é a ação ou a intenção. Contudo, a verdade é que todos temos o potencial de sermos bons e maus. Dentro de nós habitam nossos anjos e demônios e até o dia da nossa morte, existirá uma batalha incessante entre eles, numa balança em que às vezes um prato está pendendo mais para um lado, outras vezes, para o outro.

Entenda que esses demônios interiores não significam que você seja uma pessoa ruim. Isso não te torna um monstro, nem quer dizer que não seja digno de ser amado; isso não define quem você é ou anula a graça e as virtudes que todos possuímos, nem o potencial ilimitado de alcançá-los.

Uma forma de não ser dominado por eles não está em fingir que o seu lado sombrio não existe ou tentar suprimi-lo de toda forma, mas sim, fazer as pazes com esse lado e entender que faz parte de você da mesma forma que a bondade. A compreensão de que esse lado é natural a todos traz liberdade, assim como entender que há falsa necessidade de se identificar como alguém bondoso ou maldoso, pois ao estar preso a uma ideia, você se torna refém dela, e isso afeta a própria forma de ver a si mesmo e o mundo. Entretanto, aceitar isso como uma parte integral do próprio ser é muito mais difícil do que esconder esse lado nas sombras.

Há outro detalhe importante: a primeira forma como pensamos mediante algo não é indicativo do nosso estado moral. Os instintos primitivos remetem à sobrevivência e ao caos, ou seja, os primeiros pensamentos que vêm à cabeça não são referentes às diretrizes morais que serão tomadas, e não devem ser usadas como base para avaliar todo o conjunto do espectro da linha moral, visto que, por vezes, existem pensamentos auspiciosos e por outras, nefastos.

A forma como você age, contudo, mesmo tendo consciência desses dois lados, é o que define a sua moral e os seus valores, não necessariamente os pensamentos. Reiterando que o presente estado é impermanente, assim sendo, corroborando com e tendo consciência dessa situação, o que importa é qual lado você prefere abraçar e levar adiante nas situações que se apresentam no seu caminho. Isso sim se refere à sua diretriz moral e representa o seu real estado na linha moral.

Algumas vezes, esse lado sombrio se manifesta, e acaba-se tomando atitudes deploráveis no auge da vontade e do sentimento. Depois que esse período passa, vem o questionamento sobre a própria moral e valores. E, apesar de um tanto desagradável, esses momentos são muito importantes. São nesses períodos de autoavaliação que há uma construção de valores, desconstrução de pensamentos e renovação da moral.

Por isso, não importa o quão monstruoso sejam os seus demônios enjaulados nas profundezas da sua mente e do seu ser, a palavra final de qual ação será tomada e de quem estará no controle ainda é sua. Isso só demonstra a equivalência do seu potencial de fazer o bem. Quanto maior a escuridão, mais clara é a luz para iluminá-la. Mas essa só é uma possibilidade quando se aceita a integralidade dos dois estados e atinge a liberdade para fazê-la.

Não tenha medo de tirar os esqueletos do armário e nem de encarar os seus demônios. É sobre aceitar, e não eliminar ou esconder. O jeito mais seguro de se afastar da maldade interior é abraçando-a e tomando-a como parte de si mesmo (pois em verdade, é), não se rotulando entre bom e mau, mas estando consciente da impermanência e variância desses estados. E lembrando que as suas decisões e como você leva essa dualidade é o que formam a sua visão e consciência, de si mesmo, e da sociedade.

Texto planejado para o dia 31/MAR/2022

Alisson David Frangullys 11/ABR/2022 · 13:28 (GMT-5)