WallFebruaryconsistência
059/365
Algemas
This text is in Portuguese, as written.
01 / 02
Como cheguei aqui? Não sei direito. Não lembro nem como estas algemas foram parar nos meus pulsos, ou quando entrei nessa fila, que por sinal, é muito grande. Estamos andando lentamente… me pergunto para onde será que ela está indo. Vou perguntar se alguém aqui sabe de alguma coisa.
- Ei, amigo, que lugar é este? Estranhamente não lembro como eu vim parar aqui. A única coisa que me lembro era que, depois de finalmente eu ter me formado e começado a trabalhar, comecei a minha rotina – disse para o homem careca que estava na minha frente.
- Você também não lembra? A última lembrança que eu tenho é de finalmente ter saído do trabalho, como eu sempre fazia, e estar em casa com a minha mulher, ela tinha me chamado para assistir alguma coisa juntos na televisão como sempre fazemos às quintas, e do nada... Aqui estou.
- Oh, isso tudo é muito estranho. Eu sinceramente não consigo lembrar o que eu estava fazendo antes de aparecer aqui. Acho que estava tendo mais um dia comum na minha rotina. Não estou bem certo do que aconteceu também…
Ao terminar de falar isso, houve um tumulto à nossa frente. Aparentemente, um dos homens algemados saiu correndo. Ele estava assustado, olhando para os lados. Isso causou bastante confusão, sendo que, pelo visto, não tinha ninguém cuidando da fileira, o que fez com que momentaneamente todos parassem de caminhar.
Por ter sido o primeiro a sair da fila, como em cascata, alguns seguiram o exemplo e começaram a sair também. Pouco tempo depois, a fileira andou normalmente, com exceção de algumas pessoas que ficaram de fora. Achei sensato sair daquela fila também e fui de encontro aos rebeldes que estavam à margem da fila.
- Oi, o que está acontecendo aqui? Vocês sabem que lugar é este? – Perguntei a um homem ruivo de aparência distinta que estava ali em meio ao grupo.
- Não sei o que está acontecendo, mas o homem que estava a alguns metros à minha frente conseguiu quebrar as algemas em seu pulso e sair correndo. Sinceramente, não gosto da ideia de ter meus pulsos presos.
Com essas últimas palavras, todos que estávamos próximos dele concordamos com a cabeça. Olhamos para nossas algemas e tentamos abri-las de alguma forma. Enquanto fazíamos isso, trocávamos ideias de como poderíamos fazê-lo, até que alguém subitamente disse que tinha uma chave no bolso esse tempo todo. Todos ficamos boquiabertos ao olharmos os próprios bolsos e ver que também tínhamos uma chave.
Prontamente, estávamos todos sem algemas nos pulsos, procurando algum rumo para tomar naquele longo corredor estreito. Andamos, ao lado da fila dos algemados (na nossa própria fila), procurando por algo diferente, visto que não tínhamos muita escolha naquele momento além de continuar seguindo o mesmo caminho reto de antes.
Era até assustador olhar para os algemados. Parece que, depois que eu tirei as minhas algemas, consegui ter uma visão melhor deles. Eram pessoas normais, mas seus olhos pareciam tão... vazios, como se tivessem perdido a cor que um dia tiveram. Talvez fosse parte da minha imaginação, mas eles também pareciam meio pálidos, como se fossem zumbis seguindo em fila indiana.
Olhem! Alí! - Gritou uma bela moça de cabelo verde que estava mais à frente dos desalgemados. Virei a cabeça, na tentativa de ver o que ela apontava, mas estava difícil de enxergar, pois todos fizeram o mesmo. Eu só conseguia ver era a nuca das pessoas. Decidi esperar um pouco para olhar de novo e percebi que finalmente encontramos algo diferente.
Era uma espécie de saguão que estava conectado à grande fila dos zumbis algemados. Com o apertar dos passos e com um novo ânimo que envolvia a todos nós após ver algo diferente na longa caminhada, conseguimos chegar nesse salão. Não precisávamos mais andar numa fileira. Agora, estávamos em um grupo, em uma espécie de círculo.
Uma luz se acendeu em uma placa e lemos, juntos em voz alta o que estava escrito, “Taverna do Descanso” quase que em um único som. Aquilo era um grande alívio. Respiramos mais tranquilos e andamos em direção à essa tal taverna. Como em uma espécie de oásis mágico, parecia que aquele lugar atendia a todos nossos anseios. Era estranhamente aconchegante e trazia uma atmosfera de conforto que eu nunca vi igual. A primeira parte dessa taverna era um pouco escura, mas podíamos ver claramente um homem com uma flanela no ombro, oferecendo cerveja e outras bebidas alcóolicas. Apesar de já ter muitas pessoas ali, ainda havia muito mais espaço para todos nós que acabávamos de chegar.
Alguns homens que estavam conosco na fila foram praticamente correndo para o bar e pediram algumas bebidas. Parece que eles também sentiam a mesma sensação de conforto que eu senti ao entrar na taverna, só que eles estavam muito mais felizes do que eu por estar ali, especialmente no bar. Bom, não dei muita atenção a isso. Perguntei ao barman, que tinha um pano de prato pendurado no ombro, como funcionava a estalagem e ele, apontando para as escadas, brevemente explicou que era no andar de cima.
Eles tinham uma energia além da minha compreensão para ficarem tanto no bar. Por estar exausto, eu queria apenas encontrar um lugar para descansar e comer alguma coisa. Estava andando há tanto tempo que mal conseguia me lembrar da loucura que era tudo isso. Essa caminhada sem fim, as algemas… era tudo tão confuso.
Acredito que metade das pessoas que estavam no início da caminhada sem as algemas subiram comigo para a estalagem. Tinha um guichê com um botão e ao apertá-lo, recebíamos um cartão magnético com um número destinado a um quarto. Peguei o meu número - que era o 27 - e segui o corredor em busca do meu quarto.
Chegando lá, inseri o cartão no leitor e entrei no quarto. E que quarto! Nunca vi nada tão bonito assim na minha vida. Sem contar a sensação de aconchego. Era pelo menos duas vezes mais agradável do que o andar debaixo, que parecia uma caverna. Tinha tudo o que eu sempre quis num quarto e era gigante.
Uma cama muito grande e aparentemente gostosa, uma mesa com um computador de última geração, instrumentos musicais na parede e até um saco de areia num canto mais afastado para treinar. Como eles sabiam que eu gostava muito de todas essas coisas, eu não tinha como responder. É como se aquele lugar tivesse sido feito para mim – e tive a estranha sensação que realmente foi. Me perguntei se os outros quartos eram específicos para aqueles que iriam passar a noite ali também
Tentei não dar muita atenção a isso, apesar de estar extremamente tentado a usufruir de tudo o que podia. Fui diretamente para a cama e foi provavelmente o sono mais tranquilo e gostoso que eu tive na vida. Aquela cama era realmente muito boa e, quando percebi, já eram 9:50. Combinamos todos de estarmos em frente às escadas às 10 horas em ponto.
Saindo do meu quarto, dei uma última olhada e confesso que deu até uma dor no coração... Eu queria mesmo ter ficado mais tempo ali. Talvez isso tenha a ver com a minha personalidade mais caseira, mas aquele lugar era realmente especial... Só que não fiz isso. Eu tinha um compromisso com essas pessoas, o que era mais importante para mim do que o meu conforto.
10 horas em ponto e ali estávamos. Parece que mais da metade do grupo restante tinha decidido ficar em seus quartos (como eu ponderei fazer). O grupo estava ficando cada vez menor e com isso, consegui facilmente encontrar o homem careca que tinha visto no começo desta minha jornada. Nos cumprimentamos com um aceno de cabeça e decidimos que nos encontraríamos até meio-dia na entrada do restaurante que ficava dentro da taverna. As escadas ficavam bem ao meio, enquanto o bar ficava à direita (tomando a porta pela qual entramos como referência). O restaurante era à esquerda, ou seja, em direção oposta ao bar.
Sentamos à mesa que era para 4 ou 2 pessoas. O homem careca sentou-se comigo e conversamos durante a nossa ceia. Aquela comida era extremamente maravilhosa. Não faço ideia de quem a fazia. Tinha um grande menu e, ao apertar os números correspondentes ao que estava no cardápio, a comida era rapidamente entregue. Precisava apenas levantar a “portinha” de um grande tubo que levava o alimento até a mesa.
Uma das coisas que conversei com esse homem, foi sobre os arranjos dos quartos. Ele descreveu o seu, que era muito diferente do meu. As minhas suspeitas eram verdadeiras. Cada um tinha um quarto próprio, que foi feito sob medida, com os gostos pessoais. Era como se aquele lugar conhecesse você melhor que você mesmo.
Comi uma refeição maravilhosa neste lugar e até pedi outros pratos, mas ao perceber que estava começando a exagerar, decidi (mesmo que contra a minha própria vontade) parar de me alimentar. O que não era o mesmo destino da moça de cabelo verde que eu tinha visto anteriormente. Agora que eu pude ver melhor a sua silhueta, ela estava comendo bem... talvez bem até demais…
Chegou a hora e, assustadoramente, o grupo caiu pela metade mais uma vez. Várias pessoas decidiram ficar no restaurante, como a moça de cabelo verde. Éramos bem poucos neste momento. Enquanto andávamos para a saída da taverna, olhei de relance para o bar e vi o homem ruivo que eu tinha conversado no dia anterior. Ele estava ali no bar desde que chegamos. Entretanto, a sua feição era totalmente diferente e ele estava muito alcoolizado.
Era difícil de enxergar, pois o bar tinha uma iluminação um tanto quanto precária, mas consegui ver o brilho reluzente de algo no qual me tornei muito familiar no dia passado. Ele tinha algemas nos pés que o prendiam à cadeira do bar.
Saindo daquele lugar misterioso com um grupo bem pequeno, pudemos ver escrito “Saída”, do outro lado do saguão. Fiquei muito feliz em ver que finalmente estava saindo daquele lugar. Combinamos de ir para lá e começamos a nos mover em direção à saída. Mas fomos parados por um outro grupo durante o caminho.
Eram mulheres extremamente lindas que estavam ali. Tinham alguns homens bem arrumados também. Em minha direção, veio uma linda morena que perguntou se eu não queria voltar para a taverna, no quarto 27. Como ela sabia em qual quarto eu estava, era um mistério, assim como tudo neste lugar. Com um grande pesar, recusei e continuei o meu caminho. Quando fui comentar sobre a beleza daquela mulher com o meu novo amigo careca, percebi que ele não estava mais ali. Ele tinha voltado com uma linda mulher para o seu quarto.
Não era apenas ele que tinha voltado para a Taverna do Descanso. Daquelas pessoas que vieram comigo, sobraram apenas duas que eu não tinha conversado ou notado até o momento. Sinceramente, uma delas me dava até um pouco de medo. Parecia meio maluca e afetada demasiadamente por tudo isso que tinha acontecido. Olhei para as costas daqueles que estavam no meu grupo e muitos deles voltavam para a taverna com uma linda mulher ou homem ao lado, às vezes os dois.
Confesso que fiquei boquiaberto. A turma dos desalgemados era muito grande, mas foi caindo pela metade (ou mais) a cada acontecimento diferente daquele lugar estranho. Era desesperador pensar que meu grande grupo foi reduzido aos 3 que restaram no final disso tudo. Um lampejo de raiva veio em mim por causa da confusão e estresse que falavam mais alto que minha paz.
Gritei: – O que está acontecendo aqui! Que tipo de lugar é esse!? Começando por aquelas algemas. Por que todos estão caindo pelo caminho!?
Um senhor com uma bengalinha passava por ali no momento em que desabei em raiva e, suavemente, disse com um sorriso, mas que expressava tristeza: – Meu jovem, você ainda não percebeu que, durante a sua própria caminhada, é você quem escolhe as suas próprias algemas?
Alisson David Frangullys 17/FEV/2022 · 17:31 (GMT-5) revisado · 28/FEV/2022 texto para o dia · 28/FEV/2022

