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Tédio ao ócio

Sunday, February 27, 2022era one5 min readcarousel

This text is in Portuguese, as written.

Numa tarde de domingo, onde você não é “obrigado” a trabalhar ou a mostrar resultados, vem a sensação de tédio. Isso é, a falta de vontade de fazer qualquer coisa. Você se sente cansado das mesmas responsabilidades, e ter disponível as mesmas atividades para sair do tédio – e nenhuma parece atrativa no momento. Você se encontra deitado, olhando os stories e postagens dos seus amigos nas redes sociais, e nada te faz sair do lugar – na verdade, você está apenas matando o tempo.

Todos já tivemos “domingos” assim, isso é comum para todo mundo. Antes da popularização massiva das redes sociais e celulares, as pessoas costumavam sair de casa e fazer outras atividades durante o tédio (a famosa época em que as crianças brincavam na rua). Visitavam os amigos e parentes, ou até mesmo iam a lugares com aspectos mais sociais para conhecer outras pessoas.

Os tempos definitivamente são outros (principalmente nas grandes cidades), e a quantidade de coisas que você pode fazer de dentro de casa aumentou muito – estamos em outra realidade. Mas o sentimento de tédio continua o mesmo. Afinal de contas, a espécie humana de desenvolveu durante milhares de anos, e o grande avanço da computação e informação começou verdadeiramente século passado.

Pode-se até argumentar que o sentimento de tédio piorou, pois temos muito disponível na palma das nossas mãos. Perdemos o costume de não fazer nada, estamos sempre nos ocupando de alguma maneira, assistindo, jogando, navegando pelas redes sociais etc. Até mesmo nos momentos mais corriqueiros do dia escutamos música – e se não colocar alguma para tocar, parece que o que estamos fazendo fica muito mais chato e difícil.

Essa necessidade de estar sempre fazendo alguma coisa é presente até quando não estamos no pico do tédio. Seja quando estamos cansados, durante o ócio no trabalho – ou seja lá onde estivermos. Dificilmente nos sentamos e apenas descansamos/relaxamos. Estamos sempre fazendo alguma coisa que requer alguma forma da nossa energia e atenção.

Consumidos pela mania pegar o celular e/ou sentar-se ao computador para espairecer, em qualquer oportunidade que se tem. Mas quando você finalmente para, a cabeça está mais cansada do que antes. E parece que é ainda mais difícil voltar ao que estava fazendo.

Nosso descanso serve para descansar mais do que somente o corpo, mas a mente também, porém, negligenciamos isso. Ao nos ocuparmos a todo instante – mesmo no dito momento de lazer, estamos carregando mais e mais informações na nossa cabeça, e não deixamos a mente descansar. Estamos apenas divagando nossa atenção em várias coisas. Ou seja, a nossa mente nunca para de trabalhar, nem mesmo no dito momento de descanso.

Se ocupando sempre, apesar evitar com sucesso parte do tédio (pois estamos passando o tempo de uma maneira diferente da que estávamos antes), tem implicitamente um preço muito alto a se pagar. Não estamos verdadeiramente relaxando e descansando todo nosso corpo (incluindo a mente). Estamos evitando nossos pensamentos durante o dia-dia, e o momento de introspecção se torna muito pequeno. E as vezes fazemos isso de propósito, pois não estamos tendo pensamentos agradáveis.

Mas não adianta jogar um problema para depois. Se não estamos gostando dos nossos pensamentos, temos que lidar com eles e com as raízes dos nossos problemas. Ficar mascarando, evitando e postergando só vai gerar um acúmulo de estres, e depois vai ser mais difícil de lidar.

Esses pensamentos voltam em peso quando colocamos a cabeça no travesseiro para descansar (onde finalmente não estamos olhando para uma tela, escutando música, ou fazendo qualquer atividade, estamos quietos e parados, como se estivéssemos meditando), e isso gera um incomodo. O que acaba acontecendo, é que para silenciar a mente e acabar com o dito incomodo, pega novamente o celular ou o computador para “passar o tempo até vir o sono”, e dormir de exaustão.

Não digo que todos devemos nos tornar monges que peregrinam às montanhas para meditar. Mas que devemos, na maioria das ocasiões, nos afastar de qualquer coisa que serve exclusivamente para tirar a nossa atenção. Não é à toa que uma das maiores comodities de hoje é a atenção do usuário, o que acaba gerando praticamente uma guerra para ver qual companhia consegue reter mais e obter mais dados e informações, enquanto isso, o usuário sofre as consequências na “vida pessoal”.

Apesar de contra intuitivo, “não fazer nada” é muito bom para você. Você dá tempo para processar informações, fazer planejamentos, organizar e agir nas suas ideias etc. E não precisa tirar um momento específico para meditar e colher esses benefícios, pode-se fazer isso durante os momentos corriqueiros do dia.

Ao invés de acordar e ir diretamente olhar o que tem de novo pelo mundo virtual com o seu celular, olhar para o teto e deixar os pensamentos virem e fluírem, como um rio limpo, ao invés de colocar obstáculos e sujeira para dificultar o fluxo da água, e usar esse momento para se planejar. Ao invés de fazer tudo escutando música, focar no que está fazendo e no processo. Esse tipo de coisa.

Estar sempre mantendo a mente ocupada traz grandes malefícios. Seja com a preguiça e falta de vontade de fazer muitas coisas (e um grande desinteresse em tudo), a sensação de inferioridade em relação a todos ao nosso redor (baixa autoestima), ou até mesmo vivendo sempre agoniado e ansioso. E quando roubamos esse tempo de descanso da mente em prol do nosso entretenimento por um pouco de dopamina, mais tarde temos que pagar o preço de uma forma ou outra.

O tédio pode ser muito produtivo, mas quando está relacionado ao ócio – ou seja, quando usamos nosso momento de descanso para realmente descansar, ao invés de nos ocuparmos (fisicamente e mentalmente). Contudo, enquanto estivermos sempre nos e evitando o ócio, ele nunca vai ser produtivo, pois estaremos apenas jogando os problemas para depois, e ao fazer isso, eles apenas pioram.

Alisson David Frangullys 27/FEV/2022 · 12:15 (GMT-5)