Guest text

Elaine Sizilo

Participação especial #28 de julho de 20223 min read

Written in Portuguese, like the whole series.

  • Colagem: rosto de mulher metade coberto por flores e borboletas, sobre céu vermelho
Original Instagram artwork from @textosdi.versos.

Há dez anos, eu estava em um hospital com o meu filho internado na UTI pediátrica. Uma convulsão, que durou quase uma hora, tinha nos levado até lá. Era madrugada e naquele momento, eu estava do lado de fora da UTI. Não que eu quisera estar ali, mas é protocolo pedir que os responsáveis se retirem enquanto alguma intervenção é feita no paciente. E eu só saberia depois que, exatamente naquela hora, o meu filho estava sendo entubado.

Recostada na parede gelada daquela recepção quase vazia, completamente impotente, eu só podia esperar. Estalava os dedos repetidas vezes, chorava, mesmo sem perceber, e esperava. Até que notei uma senhora se aproximando. Nem sei de onde ela surgiu. Parou na minha frente e perguntou se era sobre o meu filho que eu aguardava notícias. Confirmei em lágrimas que sim. Não satisfeita, complementou perguntando se ele era filho único. Respondi que sim, novamente. E mesmo vendo o estado de extrema fragilidade em que eu estava, a senhora insistiu:

- Pois é, por isso, quem tem dois filhos tem um e quem tem apenas um não tem nenhum.

Eu conhecia esse ditado popular, mas demorei alguns segundos pra recordar seu significado. Então lembrei que se referia a quando a mortalidade infantil no Brasil era altíssima e as mulheres tinham muitos filhos, porque nem todos sobreviviam.

Em instantes, aquela senhora conseguiu transformar minha condição de espera aflita em dor compulsória. Suas palavras atravessaram meu peito como lâminas afiadas, pois mesmo estando em uma UTI, perder meu filho não era uma possibilidade imaginada até aquele momento. “Certamente não foi a intenção dela”, você pensaria. Hoje, eu também penso que não. No entanto, a simples repetição de um ditado popular em um momento inoportuno causou um estrago gigantesco no meu emocional, que já estava extremamente abalado.

Demonstrar empatia pela dor alheia é algo muito generoso, mas é necessário ter cautela e inteligência para fazê-la de forma adequada. Não são em todas as situações que cabem palavras, principalmente se não temos conhecimento suficiente sobre o que a outra pessoa está passando. Às vezes, um olhar carinhoso, um abraço apertado ou só chorar junto de mãos dadas confortam muito mais.

As palavras impensadas daquela senhora não tiveram poder sobre a condição do meu filho. Graças a Deus, ele foi pra casa com saúde alguns dias depois. Mas infelizmente, não posso dizer o mesmo a meu respeito. Tenho razões pra acreditar que tudo aquilo que foi dito deixou marcas profundas dentro de mim. Senão, como estaria eu descrevendo em detalhes o ocorrido de 10 anos atrás ainda com o coração tão apertado e lágrimas nos olhos?

Elaine Sizilo8 de julho de 2022 · 14:15

(trecho do livro que ainda não escrevi, mas já deve ter uns sete capítulos na minha cabeça)