Júlia Putini
Written in Portuguese, like the whole series.
“Você está tão acostumado consigo mesmo que não imagina o quão bonito é para um estranho.” E assim, os rostos que passam e se prendem ao meu, me arrancam um pedaço e esgarçam minha pele. Olhos sedentos que buscam algo, buscam aquilo, buscam isso, perscrutam minha face, agarram meu jeito, sufocam meu andar. Não tenho muita alternativa a não ser cortar o cabelo só para não me reconhecer mais no espelho, desbastar com o cinzel e fazer migalhas do mármore, lembrar do quanto os outros são ridículos por se deixarem sequestrar por esse amontoado de pedaços.
Preciso atravessar a avenida mais movimentada da cidade com o farol convidando os carros só para ouvir uma buzina estridente rompendo o transe das certezas tão bem afixadas. Deus não joga dados com o universo, mas eu jogo dados com ele.
Quando menos espero, acho um colar perdido na gaveta que outrora já usei muito, decido vesti-lo e me despir de todas as histórias que um dia ele simbolizou. Justamente esse é o dia em que decido usar de novo e esbarro com alguém que fica fascinado com ele, um convite ao desprendimento.
toma, é seu. - coroo uma semelhante e a revisto com o poder do encantamento inesperado e da bênção encontrada em uma desconhecida.
Se o zodíaco me explicasse diria que a lua puxou a maré e por ressonância eu me abandonei na piscina gelada à procura do grande susto, do desconforto que faz a alma ficar em suspensão dentro do corpo. Ali, rodeada da sensação enregelante eu flutuo, incomodada com a respiração acelerada de um corpo que tenta fazer de tudo para combater a morte. Quando sou vencida até mesmo a escada parece longe e pego impulso na borda, ganhando uma tonelada ao sentir que a ausência da água pesa a calça jeans e transforma o moletom em uma almofada que verte água. O vento zomba de mim ao pé do ouvido e sinto os joelhos duros, na tensão que antecede a tremedeira que virá para tentar me salvar. Subo, subo, subo e ao me despir em frente ao espelho vejo como as pontas dos dedos ganharam o mesmo tom arroxeado que sempre morou embaixo dos meus olhos. A água quente primeiro castiga minha pele antes de me reconfortar, o choque do aconchego é violento quando você nota a sucessão de danos aos quais foi submetido. O vapor começa a se tornar hostil, tudo tão quente e embaçado que não tenho opção a não ser me entregar para o torpor da sensação que vem, a pressão baixa me obriga a me concentrar na estabilidade do momento depois de uma grande tormenta entre mente e corpo expostos ao mundo. Descongelo. A carnificina que escalda minha pele me relembra do descanso que preciso permitir aos meus ossos.
Então é isso.
É tudo isso que estive perdendo. A indulgência custou tão caro quanto qualquer recomeço e sei que seu preço bastará para que eu nunca mais olhe para trás.
Será que ele sabe que é imensidão? Não uma daquelas tristes e obscuras sobre as quais geralmente conversamos, e sim uma azul e inconstante que reflete o sol e acomoda nuvens. Às vezes calmo e pacificador, às vezes turbulento e impulsivo. Sempre imperscrutável.
Perdi as contas de quantas vezes visitei esse ambiente, ultimamente na minha imaginação. Penso em como meus dedos se sentiriam em sua superfície, sei que o cheiro no fim é sempre de sal e a aspereza vira languidez.
Fechar os olhos sempre traz aquela sensação de deleite completo, mas dessa vez não quero perder de vista alguma parte da paisagem. As ondas quebram e se arrebentam no vão das minhas coxas, o mar gelado e o frio na barriga até poder mergulhar, indo na contramão da água que se (e me) empurra para fora. Resisto, me entrego, abro os olhos para a visão que é turva aqui debaixo, escuto o som abafado do rebuliço submerso sempre constante e desejante de se expressar.
Minha mãe sempre teve receio de que eu me aventurasse demais e acabasse por não voltar. Voltei todas as vezes para a sua alegria, mal sabe ela o quanto deixei para trás. Meu delírio sempre me deixando com a boca seca, os cabelos embaraçados, a pele ardida. E fome, muita fome, que depois de saciada me lança em um sono profundo onde o corpo repousa para a memória recapitular as sensações vividas.
A cada verão que passa as histórias se contabilizam na minha epiderme. Mais uma, mais dez, um aglomerado de sardas e pintas estourando. Não importa a estação, me acompanham ora mais claras, ora mais escuras, um lembrete eterno daqueles dias em que rolei sobre os grãos infinitos, brindei na água e tateei em sua direção, fazendo com que cada grão se impregnasse em minha pele.
A areia é um sinal claro da tua presença, Mar. A tempestade que chega se anuncia em seu recuo. O barco encalha, a âncora se soma à pilha de inutilidades para navegar nesse instante. Pelo menos, as pernas fortes de tanto nadar me provam que é possível escapar correndo.
Júlia Putini
