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Eldorado

Sunday, November 27, 2022era two4 min read

This text is in Portuguese, as written.

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- Depois de anos de procura, finalmente encontrei, Eldorado! A famosa cidade de ouro, certamente não era o que eu esperava...

- O que aconteceu aqui? - indaguei para um idoso que tinha uma barba muito grande e branca, que me fitava segurando um cajado com as duas mãos, com seus braços surpreendentemente fortes com pulseiras e argolas de ouro.

- Achei que a famosa cidade era para ser um oásis na Terra, com todas as pessoas felizes, ninguém trabalhando ou sofrendo, apenas prazeres e felicidade o tempo todo, mas o que eu estou vendo aqui é... Muito o contrário disso. Parece que foi abandonado, há diversos lugares que estão claramente capengando e despedaçados - eu disse, apontando para um prédio que estava em ruínas e faltando uma das colunas.

- Isso não faz o menor sentido!

- Não? – disse o velho senhor com um sorriso triste no rosto, apertando os lábios de canto.

- Vou te contar o que aconteceu aqui e no final você me diz se realmente não faz sentido – com a expressão ainda mais séria do que estava enquanto eu falava, ele começou a me encarar seriamente, recebendo o meu silêncio completo, pois agora era o momento de ouvir a história daquele homem.

- Realmente, jovem, antigamente era como você tinha dito, o paraíso na Terra. Quando os primeiros colonizadores chegaram a Eldorado, encontraram todas as riquezas da cidade esquecida. Havia muito ouro, muito a ponto de ser o suficiente para todas as gerações de cada um dos colonizadores viverem tranquilamente pelo resto da vida… Com tanto ouro disponível, decidimos distribuí-lo pela cidade, nos prédios e ruas.

- Queríamos fazer uma cidade perfeita, onde todos pudessem aproveitar as maravilhas da natureza sem ter que se preocupar com dinheiro, e ainda por cima, poderem apreciar os monumentos de ouro que ergueríamos. Esse era o sonho do meu avô, como ele mesmo me contou várias vezes.

- Trabalharam anos para fazer isso acontecer. Graças à tecnologia que já era bastante avançada na época, tornaram o sonho que tinham em realidade. As ruas eram feitas de ouro, os prédios, os monumentos no centro da cidade, os adornos e tudo mais, junto com uma natureza artificial como lagos e selva. Parecia um sonho.

- Mas, por estarem aborrecidos por não terem mais nada para fazer, começaram a ter muitos filhos e povoar a cidade. Cada um tinha que prover a sua própria subsistência, com plantações e criações de animais, e como todos tinham muito ouro e dinheiro, ninguém trabalhava para ninguém, pois ninguém necessitava de dinheiro.

- Quando a geração do meu pai chegou à meia-idade, eles já tinham ouvido falar muito de como era o mundo lá fora e todas as dificuldades que existiam. Como tiveram sempre uma vida em comunidade e de subsistência, queriam saber como funcionava essa tal sociedade que seus pais tanto falavam.

- Sabe, a dificuldade gera facilidade, mas muita facilidade gera aborrecimento e vontade de mudanças, mesmo que seja para uma situação pior. Há uma busca de um sentido e de expressão do próprio trabalho. E como todos compartilhavam do mesmo sentimento, decidiram se mandar daqui e ir para o que chamávamos de mundo real.

- Cada um carregou grandes quantidades de ouro e se mandaram, e por vezes, voltavam para carregar mais, e assim foi por mais de 50 anos, até que nada mais sobrasse, como vocês podem ver aqui. Eu fui o único que ficou, pois havia prometido ao meu avô que iria honrar a memória da sua geração, por isso, nunca saí da cidade que ele e os outros colonizadores criaram.

- Minha mãe costumava dizer que somos ensinados a valorizar o que é muito difícil. Ela dizia: “Tem que se matar trabalhando, se matar estudando. As pessoas elogiam isso, louvam quem está esgotado. Só que eu acredito que o mérito também esteja nas coisas que são feitas de forma simples, sem se escabelar. E eu levei isso para o coração, nunca tive vontade de sair daqui".

- A natureza me provém tudo que necessito, e não poderia ter tido uma vida melhor aqui onde estou. Sou feliz por ser quem sou e viver onde vivo. Não preciso de mais nada, e até mesmo o pensamento de me deixar ser guiado pela ganância me dá um mal no estômago.

- Por isso, meu jovem, a cidade está em ruínas. Fique à vontade para ficar o tempo que quiser e explorar o que restou da cidade. Tenho certeza que se você permitir a natureza falar com você, não vai ter mais nada que seja tão valioso quanto a sua própria paz interior.

E assim, o idoso encerrou a sua história e sentou-se num banco feito de pedras. Com o seu cajado ao lado, olhava para o céu e para os pássaros, esboçando seu sorriso e demonstrando a sua felicidade por estar na cidade de ouro, que mesmo sem o dito ouro, era o lugar mais valioso do mundo para ele.

Texto terminado em GMT -5, 14:04 01/DEZ//2022

Texto atrasado para o dia 27/NOV//2022

Alisson David Frangullys 30/MAR/2022 · 12:42 (GMT-5)