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Aquela conversa
This text is in Portuguese, as written.
Me sento no meio fio e arrumo a minha jaqueta para que fique confortável. Meu amigo, que está sentado ao meu lado, vira um pouco de lado para tirar a carteira de cigarros e o seu isqueiro do bolso. Ele abre a caixa, retira um bastonete aleatório no meio de vários, fecha a caixa, leva o cigarro até a boca, protege a sua ponta da direção do vento com uma mão enquanto roda com o dedão da outra mão e segura a pequena alavanca de gás, dando vida à chama do isqueiro bem na ponta do cigarro. Assim, puxa o ar com força para que queime e permaneça acesso.
Eu olho todo aquele ritual e analiso lentamente cada etapa, como se fosse a primeira vez que estivesse vendo alguém fazer isso. Quando finalmente termina, estendo a minha mão direita até ele sem dizer uma palavra; que entende e responde também sem abrir a boca. Em pouco tempo tenho um cigarro na mão e um isqueiro na outra, agora ambos inseridos na mesma atividade.
Ele, visivelmente aguardando eu iniciar o ritual, dá uma tragada funda no seu cigarro, enchendo seus pulmões com aquela fumaça tóxica, e solta lentamente pela boca no ar gélido que está entre nós dois. Em estações de temperaturas baixas, fica ainda mais visível a densidade da fumaça sendo jogada ao ar numa velocidade constante.
- Não vai acender? – Ele me pergunta, depois de soltar outra leva de fumaça no ar.
- Não, parei com esse vício. – Respondi já sabendo qual seria a próxima pergunta.
- Então por que está com o cigarro e com o isqueiro? – Ele me perguntou, como esperado.
- Gosto de manter o vício por perto, me ajuda a lembrar que a morte está sempre próxima.
Ele traga mais uma vez, soltando toda aquela nicotina e monóxido de carbono com um leve sorriso. Soube ali que esse tópico da conversa estava encerrado, e ele se ajeitou no meio fio, desistindo de esperar que eu devolvesse seus itens naquele momento.
- O que deu do emprego lá? – Perguntei subitamente, enquanto olhava para o isqueiro alaranjado transparente na minha mão, brincando com o líquido que estava dentro dele, tentando alinhar a bolinha de oxigênio, que de uma forma perfeita entre as duas aberturas da divisória.
- Nada, falaram que iam ligar – Disse, balançando a cabeça como quem diz “não”.
- Foda – Respondi, encerrando o assunto.
- E a mina lá? – Ele me perguntou, agora sem tragar o cigarro, apenas encarando a brasa vermelha da ponta.
- Nunca mais tive notícias, dessa vez acho que não tem volta mesmo – Falei, olhando para a escuridão da noite entre os postes de luz que iluminavam vagamente a rua.
- Foda – Disse ele, agora balançando a cabeça como quem diz “sim”, fechando a boca com certa força, fazendo uma bochecha ficando maior que a outra por um instante. E então, tragando mais uma vez e desfazendo a careta.
- É – comentei, parando de brincar com o isqueiro e entregando para ele.
Ele se mexe para o lado, para guardá-lo em seu bolso. Olhando para mim e rapidamente para o cigarro que eu estava segurando, faz um leve e rápido aceno com a cabeça em direção à minha mão. Entrego o cigarro também, que é guardado junto com o resto na sua carteira.
Permaneçamos lá, naquele frio, em silêncio, na mesma posição, sendo brevemente esquentados pela fumaça do cigarro que ele respirava na minha direção. Não tinha muito mais o que dizer, e mesmo sem combinar ou dizer nada em específico, estávamos pensando em nossos fracassos mais recentes depois de compartilharmos um com o outro
Estávamos passando por sentimentos semelhantes, por razões diferentes, e a presença um do outro era tudo que era necessário naquele instante. Palavras, sabedoria ou um plano complexo eram dispensáveis, apenas bastava a companhia para dividir as desventuras da vida.
Assim ficamos, até o fim daquele cigarro e mais alguns minutos. Até que um de nós, não lembro quem, se levantou e começou a limpar a calça com as mãos para tirar a areia, terra, pequenas pedras e resto de sujeira que poderia ter aderido ao tecido, e foi seguido pelo outro, como um espelho atrasado.
Foi bom falar com você, amigo – Disse olhando para os meus tênis, enquanto abria um leve sorriso. Olho rapidamente para o meu celular que estava no meu bolso para ver as horas, e guardo em seguida. Ao levantar minha cabeça e ver a rua totalmente deserta e gélida, falo em voz alta:
– Queria que você estivesse aqui, não faz ideia da falta que faz – Ao terminar essa frase, dou um sorriso sem graça olhando para o céu escuro. Então, começo a caminhar de volta para a minha casa, sendo o único naquela rua a ter a coragem de sair de casa naquele frio.
Alisson David Frangullys 28/JUL/2022 · 20:28 (GMT-5) texto para o dia · 25/JUL/2022
