2026

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Mudanças

Wednesday, August 12, 202611 min readcarousel

Written in Portuguese, like the whole series.

A vida nos surpreende de formas inesperadas. Por mais estável que tudo pareça num momento, noutro o chão de concreto que você costumava pisar se desmorona. E, por mais preparado para o inesperado que você possa estar, nunca será o suficiente.

Vou tomar como exemplo a minha própria vida. 3 meses atrás eu estava numa situação totalmente diferente daquela em que estou hoje. Apesar de 3 meses no papel parecerem muito tempo, com todos esses acontecimentos, parece que foi do dia para a noite. Infelizmente, na minha situação, não sinto que tenha mudado do pior para o melhor.

Voltando no tempo nesses poucos meses, eu estava junto com a mulher com a qual esperava casar e ter filhos. Nada estava decidido ainda, oficialmente, mas a ideia e futura tentativa era a de eu terminar o meu mestrado e juntar dinheiro por mais uns 2 anos, para nos mudarmos para algum lugar distante, como a Europa. Enquanto isso ela estaria procurando onde fazer e iniciaria o seu doutorado, e estaríamos nos apoiando durante essa fase desafiadora das nossas vidas.

Havíamos passado por momentos difíceis, estávamos reconstruindo algo que havia quebrado, mas estávamos tendo progresso através do aprendizado mútuo. Há exatos 3 meses, eu estava saindo do trabalho para passarmos tempo de qualidade juntos jogando meu jogo favorito, Terraria, e depois assistirmos ao seriado favorito dela, How I Met Your Mother - e foi o último dia que planejamos algo feliz para fazermos, mas eu ainda não sabia disso até o final daquela tarde -.

Hoje, não temos contato algum, e fiquei de herança com um buraco no peito e um coração estilhaçado. A pessoa que eu via ao meu lado no futuro ficou no passado, mas com uma dor bem presente.

Há um pouco mais de 3 meses, mas menos de 4, eu estava indo para um show de rock com o meu amigo e nos divertimos muito. Fui a outros concertos que eu queria sem a companhia dele, e ele fez o mesmo indo a alguns sem a minha. Mas eu estava convencendo-o a ir a um show que vai acontecer em breve, de uma das minhas bandas favoritas, Polyphia. Tudo estava encaminhado para irmos juntos ver este show na cidade vizinha.

Essa semana o meu amigo foi visitar um especialista para ver quais as opções de conforto ele tem para mitigar os efeitos do seu tumor cerebral, que é inevitavelmente fatal, e a expectativa de vida dele não passará de 8 anos - isso com muita sorte e grande cuidado -. Esse câncer só foi descoberto recentemente quando ele convulsionou no trabalho. Não preciso dizer que o nosso plano de ir ver o Polyphia juntos muito provavelmente não vai acontecer.

Essa notícia me afetou muito, e eu só consigo imaginar o quanto deve tê-lo afetado. Numa conversa bem triste que tivemos tarde da noite, ele me disse que estava em paz, e que agradece a Deus pela vida que teve, e que iria tentar aproveitar bem seus últimos anos aqui na Terra. A situação está fora do controle dele, mas ele tentará ter bons momentos com sua esposa, filho e filha, e já remodelou todas as perspectivas de prioridades e tempo.

A morte que ele está querendo evitar é de certa forma algo que o meu próprio pai está esperando para si mesmo. Pelo menos foi o que ele me deu a entender na última vez que eu o visitei durante a minha viagem, quando ele disse que já estava cansado dessa vida, e da péssima qualidade de vida que estava tendo por estar ligado a uma máquina de oxigênio. Ele não estava querendo ser dramático nem que os outros sentissem pena, estava apenas sendo sincero num breve momento de lucidez na sua demência. Ao sair de lá eu chorei, muito.

Enquanto eu me recompunha, recebi inesperadamente um conselho de ter uma conversa cara a cara com a minha ex, que era a única pessoa que eu achei que estaria lá por mim, mesmo nos momentos mais caóticos e tristes, até achei que fosse um sinal ou algo do tipo. Mandei a mensagem, e encontrei a resistência na resposta com um “Não venha aqui”, “Não quero te ver”, que se gravou na minha mente como aço cintilante.

Depois de ler essas mensagens neste mesmo dia, enquanto voltava para a casa do meu irmão, que dias atrás havia deixado claro que a casa dele não era a minha casa - e que eu mal era bem-vindo lá -, refleti que eu não estava me sentindo sozinho, eu estou sozinho, sou sozinho.

Enquanto o chão que eu achava ser sólido começava a esfarelar diante do meu pé, me perguntei: o que estou fazendo aqui? Num lugar em que eu claramente não sou bem-vindo e não tenho ninguém. Onde tenho que implorar para que meus amigos tirem algumas horas dos seus dias para podermos nos ver, e que ninguém faz questão alguma disso, apenas conveniências.

Estava eu vivendo uma completa ilusão há 3 meses? Ilusão de que as coisas estão bem, encaminhadas e que realmente temos o controle do nosso futuro? Ou será que tem um significado a mais que a vida está querendo mostrar, que é hora de grandes mudanças, de deixar tudo para trás e recomeçar, renascer?

O contentamento que eu tinha passando tempo com a namorada era pleno e me fazia tão bem. O tempo que eu passava conversando com os meus amigos ou fazendo alguma atividade com eles, também. E mesmo que isso tudo fosse um mar de ilusões e mentiras, eu estava… feliz e contente.

Sim, eu estava deixando os meus sonhos e aspirações para trás por estar tão confortável e satisfeito, pensando que tudo estava garantido e bem no futuro, pois todas essas coisas estavam bem no momento. Será que esse gelo é uma forma de chacoalhar a minha vida para retomar esses sonhos e aspirações, e buscar mudanças?

Talvez, talvez não, e infelizmente mesmo depois desse doloroso banho de água fria, em que estou tentando recolher minhas partes quebradas do chão para me recompor, eu não estou com vontade de voltar ao trilho, de colocar a minha cabeça e o meu foco nesses objetivos e seguir adiante. A resistência é muito grande, e o pensamento de que estou dando 2 passos para trás, sem uma rede de suporte e completamente sozinho, me faz ter muito medo. O futuro totalmente inesperado me faz ter medo. Nenhuma certeza é real, apenas a realidade de que eu estou sozinho e que a forma como vivi a minha vida toda foi certa, sem depender de ninguém, sem verdadeiramente confiar e me abrir com as pessoas, pois inevitavelmente elas irão embora cedo ou tarde, então por que se dar o trabalho?

Deveria eu estar trabalhando e juntando dinheiro para uma aposentadoria que talvez nunca aconteça, assim como aconteceu com o meu amigo? Mas se eu viver de qualquer jeito e acabar numa situação como a do meu pai, que está cansado de viver e está esperando pela morte?

O prazer e a felicidade de ter amado tanto alguém e me aberto, para ter sido chutado no chão depois de um término, em que eu não tinha força alguma para reagir mais enquanto apenas buscava algum socorro, realmente vale a pena?

Me dedicar tanto a alguém, a uma causa, a um objetivo, que pode simplesmente evaporar 3 meses depois, independentemente de quanto esforço eu tenha colocado, faz algum sentido?

Viver uma vida vã, em busca de prazeres momentâneos e vícios para distrair uma mente inquieta com tudo que vejo ao redor e quero mudar, mas não tenho forças para tal, faz algum sentido?

Eu não sei. Sinceramente não sei. E quanto mais envelheço menos coragem eu tenho de me aplicar a essas mudanças, a me adaptar, e buscar uma saída melhor, me sinto cansado, desmotivado. Enquanto isso, todo o potencial gigantesco que eu sei que eu tenho dentro de mim grita para que eu reaja. Que muitas pessoas dependem de mim e, se eu não realizar os meus sonhos e os meus objetivos, elas ficarão na mão e nunca vão ter uma oportunidade, porque eu fui medroso, preguiçoso.

“Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”, diz o antigo livro.

Por isso ainda me sinto responsável e me preocupo com o bem-estar da minha ex?

Por isso me sinto impotente ao ver meu pai ter desistido?

Por isso me sinto abandonado pelos amigos e familiares?

Por isso fico com tantas dúvidas ao descobrir sobre a morte iminente do meu amigo?

Por isso me sinto um fracassado por estar fraco demais para querer seguir adiante?

Ao mesmo tempo, penso na questão de perspectiva e que tão importante quanto os acontecimentos em si é o quanto coloco meu foco neles e como eu uso a minha energia para receber tudo isso que está acontecendo.

Durante esses 3 meses eu me mudei de casa. Estou num lugar bem melhor, e tive muita ajuda de um amigo meu que pegou um avião para me ajudar com a mudança, mesmo que para “pagar uma dívida”. Também agradeço muito a Deus por ter a minha mãe por perto, que é a única pessoa do meu círculo social que demonstra se importar e que está aqui por mim, neste mundo inteiro.

Logo estarei começando o meu mestrado, e mesmo muito nervoso e desanimado com todo o resto, eu sei que é um passo importante na minha vida, caso eu continue mais alguns anos nessa terra. Mesmo o meu pai raramente lembrando de mim e estando tão desanimado com tudo, eu fico feliz de ele estar vivo e ter estes momentos de lucidez em que podemos conversar, mesmo que por poucos momentos.

Mesmo tendo o final que teve, eu sou muito grato por ter tido o meu relacionamento, e todas as experiências e acontecimentos que vivi junto da pessoa que não é da minha família que mais amei na minha vida.

Mesmo com o meu amigo estando de frente para a morte, o fato de ele ter me dito que está em paz, e que quer aproveitar e ter bons momentos e fazer mais coisas que ele gosta, me faz acreditar que talvez tenha uma chance de irmos juntos ao show do Polyphia e outros shows juntos, e quem sabe até que ele melhore.

Eu tenho muito medo, mas também tenho muita esperança. Uma das minhas características mais fortes é a da adaptação a mudanças, e apesar de eu ter um grande receio de estar perdendo isso, eu também estou de certa forma mudando, paradoxalmente, estou me adaptando.

Mas a vida tem dessas. Tenho certeza de que muitos se sentem assim. Seja por motivos maravilhosos como ter ganho na loteria, com a felicidade de ter encontrado um grande amor, com a alegria da concepção de um filho, ou o que quer que tenha causado uma grande mudança positiva. Ou seja por motivos péssimos que nos fazem questionar tanto e nos deixam paralisados, com medo, receio, vergonha e diminuídos.

A resposta, e o certo a ser feito? Não faço ideia. Sou grato por ter tido minhas experiências. Sou triste por ter tido minhas experiências. Sou feliz e sou infeliz. Sou forte e sou fraco. Sou corajoso e sou medroso. Sou esperto e sou burro.

No final das contas, sou apenas humano, e estou enfrentando mudanças, grandes mudanças. E enquanto enfrento todas essas mudanças, peço coragem e forças a Deus, para continuar seguindo na minha jornada; também peço direção, para que eu prossiga no lugar certo, ao invés de regredir.

Então, mesmo sem vontade e desanimado, eu escolho seguir adiante. Mesmo que lentamente, vou juntando meus pedaços do chão e reconstruindo o meu ser para me recompor. Por mais difícil que alguns dias sejam até para sair da cama e escovar os dentes, eu estou tentando me agarrar às minhas vitórias, ao invés de chafurdar nas minhas derrotas. Mesmo fraco, eu busco minha força.

Talvez eu consiga realizar os meus sonhos. Talvez eu não esteja vivo até o final deste ano. Talvez eu nunca mais seja feliz como já fui um dia. Talvez eu nunca mais fale com quem um dia amei com todo o meu coração. Talvez eu nunca mais ame ninguém. Talvez eu já tenha atingido o pico da minha existência. Talvez eu trabalhe para as traças roerem o que eu consegui. Mas eu só vou saber se continuar tentando, me adaptando e mudando quando for a hora. E se eu não fizer nada disso, e apenas aceitar o fracasso, eu realmente nunca vou saber, e isso… é inaceitável.

Alisson David Frangullys12 de agosto de 2026 · 19:39