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Fim da universidade
This text is in Portuguese, as written.
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Para quem me conhece bem e convive comigo, sabe que eu não sou muito de reclamar, nem de ficar fazendo alarde sobre os eventos da minha vida. Mas aqui vai um LONGO RESUMO de vários acontecimentos dos últimos 7 anos, que foi quando comecei a minha jornada ao entrar na universidade.
É quase como se estivesse sonhando acordado, não sei. É um sonho se tornando realidade. Eu não sei quantas vezes falei “não vejo a hora de me formar” – e eu falava essa frase com toda a sinceridade possível -, e o dia chegou, finalmente chegou.
Quando me perguntam por que eu escolhi fazer Engenharia Elétrica ao invés de outras engenharias, eu só posso oferecer a minha resposta mais sincera: nunca entendi nada sobre eletricidade e circuitos na escola, sempre tive curiosidade como isso tudo funciona – celulares, internet, wi-fi, rádio, televisão, energia elétrica -, achei que fosse aprender na faculdade. Pobre de mim, mal sabia que a maioria das pessoas que escolhem esse curso é porque têm facilidade nesses tópicos, ou já tinham alguma experiência com isso tudo.
Os primeiros anos não foram ruins, mas confesso que eu fui muito preguiçoso. Eu tive um excelente ensino no ensino médio. Muito do que eu vi nos dois primeiros anos da faculdade, eu já tinha aprendido na escola, aí eu relaxei muito e fiz o mínimo que podia para passar em cada uma das matérias. Durante esse processo, só desenvolvi meu vício em jogar Dota 2 e acabei com a minha saúde mental. Nem tudo é ideal ou perfeito, e foi por aí que comecei a aprender isso, como por exemplo, um curso que eu poderia ter terminado em 4 anos e meio, eu levei 7 anos.
Outra coisa que acontece, geralmente, quando eu digo que demorei 7 anos para me formar ao invés de 4.5 ou 5 anos, é que as pessoas me olham com aquela cara “nossa, mas você é meio burrinho, hein”, então prontamente digo que tive uma dupla graduação, isso é, me formei em dois cursos na faculdade ao mesmo tempo: Engenharia Elétrica e Física. E, durante todo o tempo dos meus estudos, só teve 6 meses em que eu não trabalhei (e tive que largar a faculdade por dois semestres).
Ao dizer isso, me olham como se eu fosse algum tipo de gênio, tanto pela dificuldade dos cursos (e por fazê-los ao mesmo tempo), quanto pelo esforço que é trabalhar e estudar (o que só é realmente entendido e apreciado pelas pessoas que já fizeram isso). Não acho que eu seja gênio, ou um bocó, mas me considero um sobrevivente por ter terminado algo que me trouxe tanto estresse, ansiedade, nervosismo, insônia, e durante o processo todo, ter colaborado com o meu vício em jogos eletrônicos (vai vendo).
No terceiro ano, por aí, eu comecei a ver que precisava mudar meu comportamento, mas não mudei. Reprovei na minha primeira matéria (Circuitos I), e isso me atrasou em 1 ano. Tive também que lidar com coração quebrado e solidão por estar num país em que eu não conhecia ninguém e mal falava o idioma, problemas familiares, e uma miríade de dificuldades, que só me faziam cada vez mais querer fugir disso tudo. Enfurnado no meu canto, escondido na frente do computador, jogando online com os poucos amigos que eu tinha, assim eu seguia...
Emprego ruim atrás de emprego ruim, mas era o que tinha disponível no momento. Ninguém quer dar uma chance para um jovem sem carteira, sem ter completado uma educação formal superior e que não fala o idioma local com fluência. Quando eu achava um emprego menos pior que aceitava me contratar, eu mudava. Às vezes, eu só descobria que, na verdade, estava num emprego pior depois de ter feito a mudança. Mais arrependimento acumulado.
Depois dessas situações, tive a oportunidade de mudar de faculdade, sendo então necessário eu mudar de casa, mas isso iria me custar 1 ano da minha educação. Para transferir de faculdade, não eram todas as matérias que seriam aceitas como equivalentes, eu teria que terminar uma lista com essas informações, mas a situação em casa estava insustentável. Eu tinha que ir embora, tinha que me mudar, tinha que ter a minha vida. Foi aí que comecei a cursar Física.
Eu tinha acabado de entrar num emprego que eu não odiava. Sinceramente, eu até gostava! Como entregador de pizza, trabalhava com o carro emprestado que eu tinha, o pessoal era legal, o dinheiro era bom e eu podia comer de graça, o que era uma economia muito grande para alguém que precisava usar todo o dinheiro que recebia para sobreviver e pagar as próprias contas.
Me mudei, mudei de faculdade, tive que largar o emprego, mas me disseram que eu poderia voltar e trabalhar aos finais de semana e, durante minhas férias da faculdade, foi o que eu fiz. Eu estava pronto para essa nova vida. Sem computador e longe do meu vício, voltei à rotina de estudos, à velha sensação de ter dor de cabeça de tanto estudar e ir direto para cama. Comecei a treinar em casa e a fazer dieta para ganhar peso, as coisas pareciam promissoras no meu canto novo.
Mas as dificuldades superaram as melhorias. O aluguel era um absurdo: 750 por mês! Eu conseguia tirar cerca de 800 por mês trabalhando de sexta à segunda. Eu saía da última aula, ia para a minha antiga cidade e trabalhava até o comércio fechar. Nos dois dias seguintes, abria e fechava a loja, uma rotina comum de 16h de trabalho por dia aos finais de semana. Em casa, a comida era algumas pizzas velhas e congeladas que eu conseguia levar do trabalho. Quando sobrava uma graninha, era arroz e salada, e se tivesse sorte, entrava um ovo na história. Quantas histórias eu tinha para contar desse lugar... Quantas vezes olhei na geladeira de madrugada, faminto, e só tinha um pote de margarina vazia e água gelada. Tinha vezes que eu esquecia de encher a garrafa de água, então era só uma garrafa vazia com um pote de margarina, e eu ficava com raiva de mim mesmo por ser tão irresponsável. E também fui roubado. Roubaram o apartamento, levaram as minhas entregas... É, a situação não estava muito favorável.
A balada na frente do meu flat tinha o som muito alto, e eu tinha bastante dificuldade em dormir. A casa toda era menor que o meu quarto antigo, mas o que me fez abandonar aquele lugar foi o vizinho novo, que era gay e morava com o seu namorado. Como eu sabia disso? Eu tentava dormir de madrugada, mas as paredes finas tremiam bem onde ficava minha cama (meu sofá) com a rotineira música eletrônica alta e os gemidos mais altos que alguém poderia imaginar vindo de dois homens cheios de energia, TODA NOITE. O lado bom desse tempo é que eu fui o único aluno de Mecânica Clássica I a tirar +90, mas também só tem esse lado bom mesmo.
Por aquele tanto de dinheiro que eu estava pagando naquele apartamento minúsculo, eu poderia dar uma entrada num carro. O flat era tão pequeno que não haveria diferença em migrar para um carro, visto que eu também não tinha praticamente bem nenhum, apenas algumas coisas que o antigo dono havia deixado para mim: uma escrivaninha de madeira caindo aos pedaços e uma mesinha de café bem maneira, que eu tomava chá depois de meditar ou depois de fazer exercício físico.
Durante as férias, trabalhei como um condenado na pizzaria. Em média, eram cerca de 85 horas por semana (o equivalente a mais de 2 empregos), e comprei meu carro, meu amado carro, um Prius. A escolha não foi atoa, ele é muito econômico e eu “faria mais dinheiro” entregando com ele, além disso, ele era grande o suficiente para que eu pudesse dormir nele. E foi exatamente o que eu fiz.
Dormir num carro é uma experiência interessante, eu poderia escrever muito sobre isso, mas não é o foco aqui. O que posso resumir é que, depois de um ano, eu tinha um sistema bem eficiente. Eu ia para a academia com o intuito de tomar banho e enquanto estava lá, treinava. Eu preparava toda a comida durante o final de semana e guardava escondido na própria faculdade e/ou no carro. Aprendi a colocar insulfilm no vidro do carro para poder dormir melhor, e também coloquei calhas de água para respirar. Demorei um bom tempo para fazer essas melhorias, mas valeram muito a pena. Quando nevava, eu tinha meu equipamento de dormir para me proteger do frio extremo. Quando fazia calor, eu apenas sofria, e muito.
Durou 1 ano essa vida de dormir no meu carro. Ao acordar, eu ia direto para a biblioteca e ficava estudando enquanto esperava as próximas aulas. Quando ficava muito tarde, ia para a academia tomar meu banho. No final de semana, eu voltava para minha antiga casa - dos pais - para lavar roupa e trabalhar minhas rotineiras 16h por dia. Aprendi tanto com isso... Eu tinha apenas um objetivo em mente, que era me formar, acabar com isso de uma vez por todas, pois era muito cansativo. No meio disso tudo, muitas outras coisas aconteceram e foram mudando. Eu fui mudando.
Então, depois desse ano morando no carro, começou o semestre seguinte. E, algo que ainda está na memória de todos, foi o ano do Covid. Eu voltei para casa, as aulas eram online agora. O relacionamento com a minha família mudou muito. Minha mãe e meu padrasto abriram um negócio (uma cafeteria) e trabalhavam muito o dia todo, tentando fazer algum dinheiro para pagar esse investimento, mas raramente dava certo. O lugar era um sucesso na cidade, referência até, mas mesmo assim, não era o bastante para pagar as próprias contas. Eles se esforçaram muito e deram seu melhor, mas tiveram que vender o lugar com o começo da pandemia.
Assim como eu aprendi muito, eles também aprenderam muito. Juntos, nos tornamos pessoas melhores, seguindo por caminhos diferentes, só que agora, tínhamos uma relação muito melhor. A venda da cafeteria trouxe também um alívio para a família. As brigas intermináveis diminuíram e quase acabaram, o eterno espírito de luto na casa foi embora. Sorríamos novamente, as coisas melhoraram, mesmo nos tempos mais caóticos das nossas vidas.
Voltei a morar com os meus pais. Já estava há 5 anos nesse processo desde que comecei a faculdade, e aqui estava eu, no mesmo lugar, mas eu já não era mais a mesma pessoa. Aprendi várias coisas, e uma das que mais me motivaram foi uma análise de dados que eu desenvolvi quando tive que largar a faculdade para trabalhar e juntar dinheiro. Comecei a aplicar isso na bolsa de valores. Foi um sucesso.
O que chamam de day trade, é você comprar e vender uma ação no mesmo dia. Tem uma coisa chamada “Opções Futuras”, que é algo que resumidamente te dá alavancagem multiplicada por 10. Se você tem menos de 25 mil na conta, você só pode fazer 3 day trades por semana, e foi o que eu fiz. Toda a semana, fazia minhas 3 day trades. Fiquei 14 semanas consecutivas fazendo dinheiro. Eu me sentia uma lenda viva, aprendi a fazer dinheiro do nada. Meu novo objetivo era juntar os 25 mil para que eu pudesse fazer quantas day trades eu quisesse, e pudesse me tornar milionário, antes mesmo de terminar a faculdade.
Arranjei um 2º emprego de entregador dos correios. Eu tinha 2 empregos agora, acordava às 6h da manhã, ia para o correio e trabalhava até 17:30h, e então, ia para a pizzaria, fechava a loja geralmente à 1h da manhã, e chegava em casa lá pelas 2h. Banho, cama, dormir 4 horas, repetir o processo. Eu tinha 1 dia de folga na pizzaria e 1 dia de folga no correio. Assim foi meu período”covidiano”, trabalhando 18 horas por dia. O que eu fazia no meu dia de folga? Além de dormir, não vamos esquecer que eu estava tendo aulas online da faculdade.
Eu tinha um objetivo, que era juntar os 25 mil na conta o mais rápido possível. Eu tinha que cumprir com esse meu chamado, eu tinha aprendido anteriormente que as regras do jogo sempre mudam, e quando mudassem, a minha estratégia não funcionaria mais. Há alguns anos, quando eu estava apenas trabalhando, comecei a fazer apostas no Dota 2. Eu analisava todos os times e jogos, e fazia minha predição. Ganhei 16 apostas seguidas, um feito extremamente difícil, e aí veio um Update (atualização no jogo) e tudo mudou. As regras mudaram, o que eu sabia já não valia mais, e na minha aposta 17, eu perdi tudo o que tinha ganhado até então. Eu não queria que isso acontecesse novamente, muito menos com as ações e com tanto dinheiro envolvido.
Era uma corrida contra o tempo. Todos os dias, eu acordava extremamente quebrado e cansado do dia anterior, carente de comida saudável, pois além de pizza, só consumia alimentos do posto de gasolina, que eram a única coisa que eu podia comer com o tempo que tinha disponível. Eu acordava e falava para mim mesmo “faltam apenas XX dias”, onde XX era o número de dias que eu tinha que ir trabalhar para ter dinheiro suficiente para começar a fazer day trades ilimitadas.
O corpo humano tem seus limites, todo mundo sabe disso, mas eu não sabia ainda qual era o meu, mas logo descobri e a minha mãe também, quando mandei fotos para ela com o rosto ensanguentado, no hospital, pedindo para trazer os meus documentos para eu poder ser atendido. O meu corpo desistiu de mim. A minha força de vontade foi maior que o limite do meu corpo. Sofri um acidente de trabalho que, confesso, poderia ter sido evitado se eu estivesse nos meus 100%. Refleti bastante sobre a minha vida até aquele momento enquanto estava semi-inconsciente, pensando enquanto via o sangue pingar do meu rosto. Fui levado e fiquei no hospital aquela noite toda, mas pelo menos o trabalho cobriu as despesas do hospital, pois eu estava justamente em horário de trabalho (afinal de contas, quando não estava?) e, apesar do atestado ser de apenas 3 dias, eu não tinha a menor condição de voltar a trabalhar, e não pude retomar por 3 semanas.
Eu precisava de dinheiro ainda... E agora, estava sem poder trabalhar, correndo com os conteúdos da faculdade, mas sem fazer mais dinheiro. Fiz 8 cartões de créditos, comecei a comprar e vender coisas neles para juntar o dinheiro mais rápido. Eu realmente precisava de muito dinheiro, e urgente. Minha família disse que iria viajar e que iriam comprar a minha passagem de presente para eu ir também. Meu sonho seria poder viajar e fazer day trades na bolsa, ficar rico e me divertir? Claro que eu queria isso pra mim! Fiz um empréstimo, além das dívidas e do dinheiro do trabalho, viajamos, e o valor do empréstimo finalmente caiu na conta: $25.323. Que comece uma lenda!
E pode ter certeza que eu era uma lenda. Eu estava consistentemente fazendo dinheiro, muito dinheiro. $300 por dia, essa era a minha média, com o dinheiro que eu tinha. Eu parecia um maníaco fazendo day trades. Teve um dia que eu fiz 84 day trades. Aprendi uma lição muito importante. Não é porque eu posso fazer alguma coisa, que eu deva. Nesse dia, foi quando eu tive minha grande perda nas ações. Ainda estava positivo, mas uma grande perda apareceu. Terminar o dia no vermelho era algo desconhecido para mim.
E chegou o momento, as regras do jogo mudaram. Aprendi que elas sempre mudam em dezembro, e era dezembro, quase Natal e eu perdi, muito, muito, e tudo. Todo o meu trabalho, que eu coloquei literalmente meu suor e meu sangue, foi para o lixo. E sobraram dívidas, muitas dívidas de empréstimos e cartões de créditos zangados cobrando juros absurdos. Angústia é uma palavra leve para descrever o que eu sentia a todo instante. Eu reprovei em uma matéria na faculdade, mas consegui passar nas outras. Essa é a única “boa notícia" que eu tive. Eu precisava recomeçar. Aprender a ter paciência... Raspei o cabelo, doei para o hospital que cuida das crianças com câncer, e recomecei... Um novo caminho, um recomeço. Ainda tinha minha universidade, faltava 1 ano e meio para eu terminar.
Eu estava mais uma vez no fundo do poço. Não me era estranho estar lá, mas cada vez que eu voltava, ia mais e mais fundo. As minhas notas gerais na faculdade foram de 7.5/10 🡪 2.99/4.0. Para conseguir um bom emprego na área, eles querem que você tenha pelo menos 8.0/10, ou nem olham o seu currículo, então eu estava sem esperança de conseguir um emprego bom mesmo depois de formado, isso se conseguisse um. Tinha uma dívida absurda e sem prospecto algum de pagar, além da faculdade que eu teria que saldar. Convertendo minha dívida para reais, chegou a 1 milhão quando o dólar bateu seu recorde na casa dos R$6. Aos 25 anos de idade, eu estava acabado.
Essa história é mais longa do que eu imaginei que sairia, e confesso que estou até cansado de escrever. Provavelmente ninguém vai ler isso aqui, mas tudo bem. Apesar de eu resumir ao extremo os últimos 5.5 anos da minha vida, vamos resumir os acontecimentos ainda mais.
Se passou esse 1 ano e meio, o tempo da formatura chegou. Nesse período todo, muita coisa aconteceu, assim como muito mais coisa aconteceu no meio tempo que tudo isso que acabei de relatar aconteceu. Essa história é apenas mais uma em paralelo a várias outras que aconteciam no mesmo momento. As pessoas que conheci, as coisas que aprendi, tudo que eu vivi...
Eu tive que lutar muito para conseguir um emprego, dar a cara a tapa, e tomar não apenas o dito tapa, mas também um gancho direto com uma força de um campeão de boxe, aí precisava juntar os meus pedaços e voltar ao ringue. Tive que aprender a lidar com as minhas perdas de dinheiro e tempo. Digo que tive que aprender, pois fui praticamente obrigado pela vida. Não tinha outra maneira, ou aprendia, ou desistia e aceitava o fracasso total, mas a minha mãe não criou um fracassado.
Voltei a trabalhar em apenas 1 emprego (pizzaria). Fui lentamente pagando minhas dívidas e voltei a investir um pouco. Tive alguns ganhos excelentes que me deram esperanças, tive algumas perdas gigantes que mataram as ditas esperanças. Fui levando a faculdade, já que faltavam apenas 1 ano e meio. Eu tinha que terminar isso logo, não aguentava mais, como disse logo no início de tudo... Não aguentava mais...
Eu costumava ligar para o meu pai e conversar com ele por horas enquanto estava fazendo minhas entregas, sempre falando sobre meus medos de não conseguir um emprego, de não me formar, de não conseguir pagar essas dívidas que me assombravam... Ele torcia por mim, me acalmava, repetia que tudo tinha seu tempo, e o meu tempo iria chegar, eu só precisava continuar lutando com a mesma garra, mesmo depois de me desanimar e ter chegado ao meu limite... E foi o que eu fiz.
UM PULO de 1 ano aqui. Faltando apenas um semestre para me formar. Finalmente chegando, inacreditável! Meu pai me fez um empréstimo por ter conseguido um dinheiro inesperado. Ele queria que eu voltasse a investir... Eu estava com medo, mas eu fiz, e consegui recuperar praticamente tudo que eu tinha perdido! Faltavam apenas 4 mil dos 25 mil que tinham ido para o ralo, essa foi uma vitória insana.
Consegui uma entrevista com uma empresa que presta consultoria, uma empresa grande e de renome. O emprego era algo que eu queria fazer há muito tempo, ser um analista! Meu sonho é ter meu próprio negócio, e percebi que eu gosto de analisar dados e tendências. Este emprego seria perfeito para eu aprender a fazer essas duas coisas que eu gosto, além de trabalhar com programação, o que me daria a chance de crescer mais tarde. Eu contava para o meu pai isso tudo, e ele continuava torcendo por mim.
Consegui a minha cidadania, e tudo deveria facilitar. Estava tudo indo muito bem. Larguei todos os meus empregos. Em meu último semestre, falei a mim mesmo que não iria trabalhar, mas iria terminar a faculdade de uma vez por todas, e pegaria meus dois diplomas.
Consegui uma entrevista como engenheiro de testes! Outra entrevista na Amazon! Outra entrevista (2º round) na empresa de consultoria! Faltavam 4 mil para eu recuperar todo o dinheiro perdido nas ações! Tudo estava maravilhoso. Restavam apenas 2 meses para eu me formar! Essas entrevistas se transformaram em ofertas de empregos! Inacreditável, eu não seria um desempregado, as dívidas poderiam ser pagas... O TCC quase foi finalizado...
Aí me veio a primeira batida, o primeiro baque. Guerra na Ucrânia, o que isso quer dizer para mim que nem na Europa mora, além do aumento dos preços? As ações, em tempos incertos, caem... Eu tinha saído, vi cair, vi uma oportunidade de subida, fiz minha entrada perigosa, e daí caiu. Dobrei minha compra para ter uma média boa para quando subisse. Caiu mais, dobrei mais uma vez... Você sabe onde vai parar, né? Sim, de -25 mil que era meu recorde de perda, foi para -33 mil. Quebrei novamente... Achei que eu teria aprendido minha lição na primeira vez, mas não foi o que aconteceu. E agora, eu tinha uma dívida extra, só que com o meu pai.
O emprego e a oferta, esses deram certo! Mais ou menos… Mas eu precisaria me formar, ou perderia a oferta de emprego. E a faculdade… Também deu certo! Passei nas matérias.
Mas algo ainda mais inesperado aconteceu. O meu pai não atendia mais as minhas ligações há semanas, e eu estava com tantas coisas para contar para ele. Mas ele simplesmente não atendia... Depois de um bom tempo, me contaram que ele estava internado no hospital. Bateu a cabeça 2 vezes saindo do bar e desenvolveu demência. Ele dizia que eu tinha 7 anos de idade para quem perguntasse... Ele não lembrava que eu tinha nem viajado... Não lembrava de nada. Eu queria contar para ele que em 15 dias iria me formar, finalmente! Depois de 7 anos de uma jornada complicadíssima, finalmente estava chegando ao fim!
Eu teria um emprego que eu ia gostar e iria me pagar muito bem. Mas ele simplesmente não entenderia essas notícias... Ele ainda estava tentando compreender onde estava, e o que estava acontecendo, dia após dia. Nesse momento, percebi que uma parte do meu pai tinha ido embora, e junto disso, uma parte minha também foi. Talvez eu tenha demorado demais para me formar, talvez eu tenha cometido muitos erros no meio do caminho... Não sei. Só sei que, ao chegar no fundo do poço, eu descobri que era a primeira camada, o buraco era muito mais fundo e eu ainda tinha muito mais a perder do que tinha em vista. Sempre temos muito mais a perder do que achamos que temos.
Finalmente chegou o dia de receber o dito canudo do diploma. Sexta e sábado. Engenharia e Física. Minha mãe e meu padrasto estavam lá vibrando por mim, orgulhosos, as coisas se encaminhando para uma boa direção. Fiquei feliz demais por finalmente estar passando por cima desse inferno, mas ao mesmo tempo, não pude deixar de pensar que eu queria que o meu pai soubesse disso também, que ele pudesse sentir esse mesmo orgulho... Mas isso é algo que nunca vai acontecer.
A faculdade acabou, recebi os dois diplomas e ganhei de presente uma viagem para o outro lado do país. Esse último ano foi o único que eu senti durante a minha vida toda que eu vivi. Tanto por não ter que trabalhar, mas também por poder aproveitar mais a minha vida, conhecendo lugares, saindo com amigos, respirando...
Algumas coisas estão totalmente fora do meu controle, e outras estão nas minhas mãos e dependem só de mim. Ainda estou aprendendo a me preocupar com aquilo que eu tenho o controle, e a aceitar que certas coisas eu não posso fazer nada a respeito. Tenho escrito, viajado, tentado espairecer. A ansiedade que eu tinha por causa da faculdade, dor de cabeça, noites sem dormir, nervosismo latente, provas, trabalhos, mais trabalhos… Acabaram, finalmente acabaram. Um peso saiu das minhas costas numa proporção que eu não consigo descrever. Um emprego está me esperando mês que vem. Ou foi o que eu pensei, até me mandarem um e-mail mudando meu contrato de Junho para Setembro. Ainda fica um mistério no ar sobre o que vou fazer para ter algum dinheiro até lá.
Mas nem a dívida absurda que eu carrego tem um peso tão grande quanto a agonia que a faculdade me trazia, e é nessa paz que me apego. É incrível. Mas tenho novas tristezas, como acabei de contar, mas tento não me deixar ser carregado por elas. Nem sempre é possível. Outras situações e pessoas tiram a minha paz de formas inesperadas, mas eu tento lidar da melhor maneira que posso, sempre fiz isso e não pretendo mudar agora, mas confesso que está sendo difícil.
Só que estou formado, e é uma dupla graduação. Foi uma LONGA jornada, e com este LONGO resumo, deu pra ter uma ideia disso. Se fosse contar tudo que aconteceu... Daria um livro. Tenho planos, tenho perspectivas, tenho esperanças. Agora, quero aproveitar um pouco da minha viagem antes de imergir neste mundo corporativo e começar a trabalhar no que chamam de “Emprego de verdade”, vulgo “emprego que te paga para ficar em casa no Natal” (inacreditável, eu sei). Eu tenho muita gente pra agradecer e toda essa coisarada, mas este texto aqui é diferente, é para relembrar um pouquinho da minha própria luta, do que eu passei, do que eu senti e do que eu vivi. Não foi fácil, por isso disse e repito, me sinto um sobrevivente disso porque, na verdade, é isso que eu sou.
Alisson David Frangullys 28/MAI/2022 · 01:03 (GMT-7) texto para o dia · 31/MAI/2022


