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O real ensino da universidade

Sunday, May 22, 2022era one5 min read

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Quando eu estava para entrar na universidade, achava que lá seria um lugar onde ensinaria tudo o que o estudante precisaria saber para ser um profissional na área escolhida, que os alunos todos achariam suas disciplinas difíceis, mas sairiam de lá preparados para atacar o mercado de trabalho ou continuar estudando para se tornar um pesquisador. E, por isso, eu acreditava em meias verdades.

A universidade é um lugar muito interessante, é como se fosse um jogo, pois tem certas regras a serem obedecidas, mas cada jogador escolhe uma forma diferente de jogar. E o final não é tão óbvio quanto parece: o que cada um aprende durante a sua formação é muito individual e vai depender da forma como jogou durante o tempo que ficou lá.

Começando pela maior confusão, a universidade não te ensina tudo o que você precisa para o mercado de trabalho, na verdade, essa é a parte mais deficiente da formação. Acredito que ninguém saia bem preparado (em conhecimento técnico) para o mercado de trabalho. A maioria das ferramentas e técnicas usadas “no mundo real” não são nem mencionadas durante a formação. Muitas matérias que você vai ter (matérias difíceis, que vão tirar várias noites de sono), podem ser completamente descartadas da sua memória no dia que se formar.

A universidade vai te apresentar vários tópicos diferentes relacionados à sua área e a partir daí, você vai ter uma noção maior do que gosta de fazer, e vai poder procurar um emprego que não odeie. É como se fosse uma introdução que vai te ensinar o básico e dar um caminho para que possa estudar por conta própria caso tenha interesse. Ainda assim, continua sendo raro os casos em que se pode aplicar diretamente no mercado de trabalho o que se aprende em sala de aula.

Agora, tem uma coisa que a faculdade vai te ensinar muito bem: como aprimorar quem você é, e como tirar a melhor vantagem possível disso. A maioria das pessoas vão “jogar este jogo” da mesma forma. Vão tentar estudar, aprender o que for preciso para tirar a nota para passar, se dedicar mais nas matérias preferidas e sofrer nas matérias que menos gosta, e repetir o ciclo até o dia de ir segurar o canudão. Mas até nesse modo mais básico, você vai ser obrigado a fazer e aprender coisas que não gosta, como trabalhos, relatórios, uma tese complexa, lidar de várias formas com pessoas, não desistir de um objetivo por anos (por mais irritante, chato e doloroso que esteja sendo o processo), e etc.

A faculdade te ensina a ser um sobrevivente, a ter resiliência, suportando o que você não gosta, e a não desistir. E essas lições são mais importantes que o conteúdo passado em sala de aula.

Sobre fortalecer os seus melhores pontos, é só lembrar daquele aluno puxa-saco do professor, o grande bajulador que, ao invés de se esforçar para ser mais competente, coloca esse esforço em querer agradar a pessoa que está encarregada do lugar.

Também temos o carentão, que faz perguntas em sala de aula não por ter dúvidas, mas para demonstrar “quão inteligente é”, e ser admirado pelos demais.

Temos o sanguessuga, que fica se escorando nos outros durante a formação toda, não participando de forma útil dos trabalhos, projetos ou laboratórios, mas sempre esperando que os outros façam o trabalho para ele. Durante as provas, fica implorando por cola.

Ainda, temos o gênio que, sendo auto descritivo, é o sujeito que mais se dedica, ainda que pensem que é um “dom”. Ele estuda, se esforça e coloca tempo no conteúdo passado, e a consequência disso é ir bem e fazer um bom trabalho acadêmico.

Alguns escolhem ser mais versáteis, fazendo várias amizades e trocando informações, conseguindo provas e trabalhos antigos (que os professores não se dão o trabalho de mudar muito). É o sujeito que, se você precisar de algo daquela matéria, ele vai ter, mas provavelmente vai te cobrar alguma coisa equivalente. Algumas pessoas até desenvolvem habilidades para sobreviver nesse meio, como alguns alunos que aprendem programação para hackear o sistema e ter os trabalhos e provas antes do horário, ou até mesmo simplesmente mudam a sua nota no sistema.

Ou seja, nesse jogo, você escolhe a sua estratégia e joga de acordo. Esse tipo de situação é vista depois no mercado de trabalho, e cada um tem o seu lugar. No final disso tudo, alguns escolhem ficar e estudar ainda mais, outros saem desesperados para começar a usar o diploma recebido. O que precisam saber para se dar bem no mercado de trabalho é o básico do que foi ensinado, pois a maioria do que é mais prático vai ser ensinado nas primeiras semanas no emprego novo. Agora, as habilidades descritas acima são as mais esperadas em qualquer emprego.

Por isso que foi dito logo de início: durante a sua formação, a faculdade tem uma ênfase muito maior em te ensinar a ser um sobrevivente do que transmitir qualquer outro conteúdo técnico.

Alisson David Frangullys 25/MAI/2022 · 20:50 (GMT-7) texto para o dia · 22/MAI/2022