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Relatividade do tempo
This text is in Portuguese, as written.
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Que o tempo é relativo, todos sabem, ou pelo menos já ouviram falar, mas o verdadeiro significado disso tem raízes muito mais profundas que apenas equações físicas. Talvez um dos aspectos mais peculiares da relatividade do tempo esteja na biologia, ou até mesmo na sociedade. Vamos discorrer um pouco sobre cada uma delas.
O conceito de tempo é bem vago, apesar de existirem diversas maneiras de medir a sua passagem. A maioria das pessoas na América e grande parte da Europa veem o tempo como uma linha reta, em que o começo dessa linha representa o início de algo, e a direita, o final dela (e todos os acontecimentos no meio desses dois períodos seriam o que representa uma história).
O que seria o tempo então? Um “tic” no relógio? Um período de acontecimento entre A e B? Apenas algo que possa ser medido? Quanto tempo é muito e quanto é pouco? O tempo é realmente linear, ou pode ser que seja curvo? Todas as coisas são realmente relativas? As pessoas vivem o mesmo tempo ao mesmo tempo? Essas coisas geram mais perguntas do que respostas concretas únicas, mas algumas delas têm respostas sim.
O princípio básico aqui é entender que o ser humano enxerga o tempo de uma forma diferente comparado a outros animais da Terra, e não apenas de uma forma filosófica ou moral, mas sim tangível, prática.
O tempo de cada pessoa é único. Apesar de existir a leve impressão que duas pessoas conversando frente a frente estão vivendo exatamente o mesmo tempo, na verdade, cada uma está num tempo diferente. Esse tempo pode passar mais rápido ou mais devagar dependendo da velocidade que você está em relação ao que está interagindo. De uma forma geral, quanto mais rápido você está, mais “lentas” as coisas vão parecer estarem ao seu redor.
Certamente, para a maioria das questões práticas, essa diferença de variação de tempo é tão pequena que chega a ser impossível de se perceber sem o uso de instrumentos de medição extremamente precisos (como os relógios atômicos). Até eventos mais “significativos”, como o fato de que alguém que pega um avião ter o tempo passando mais devagar, chegam a ser muito pequenos e insignificantes para realmente serem algo perceptível. Os próximos 2 parágrafos demonstram isso.
Ao pegar um avião que está a entre 10.500 e 11.000 metros de altura por 8 horas, à 1.000 quilômetros por hora, usando a fórmula de Lorentz (também conhecida como a “transformada de Lorentz”), descobre que na verdade estará 0,005 segundos adiantado em relação a alguém em solo (considerando um voo do sul para o norte, e o indivíduo estacionário ao nível do mar). Ou seja, o tempo passou mais rápido para quem estava no voo.
0,005 segundos não parecem ser significantes o suficiente para causarem nenhum efeito. De certa forma, não são mesmo o suficiente para causarem nenhum efeito prático na rotina do dia a dia. Considerando que o tempo de resposta de neurônio para o outro - como tirar a mão de um fogão quente - é de 150 milissegundos (ou ms), e 0,005 segundos é 5 ms, precisaria de 30 viagens de avião para ter a vantagem de “1 reação”.
Apesar dessa “diferença temporal” parecer tão imprática a ponto de alguns considerarem “inútil”, sistemas que precisam de exatidão e controle usam muito esse tipo de variância, como GPS, conexões de satélite e lançamentos espaciais. A importância é ainda mais extrema quando as coisas escalam para um tamanho menor e uma velocidade muito maior.
O conhecido “paradoxo dos gêmeos” é um exemplo de viagem espacial em que um gêmeo viaja a uma velocidade próxima à da luz e o outro fica na Terra. Se viajar a 0.6c (onde c é uma constante da velocidade da luz), em 10 anos de viagem, seria o equivalente a 16 anos na Terra, ou seja, se ao viajar aos 20 anos de idade, voltaria com 30 anos, mas seu irmão gêmeo teria 36 anos. Esse tipo de situação é muito mais dramática e fácil de entender como escala a relatividade do tempo.
Pela mente humana ser tão egocêntrica, fica fácil de imaginar apenas o tempo “humano”, apesar da maioria dos seres vivos serem microscópicos, como bactérias, vírus e células. Nessa escala microscópica, o tempo é muito diferente do que qualquer um estaria acostumado a ver, a ponto de “a forma de enxergar o mundo” ser diferente. Muito disso acontece por causa das reações serem muito mais rápidas, e como dito anteriormente, quanto maior a velocidade, mais evidente esses eventos ficam.
Não precisa ir tão longe. Ao tentar matar uma mosca que tenha pousado no próprio braço, parece que a mosca “está vivendo num tempo diferente”, em que vê “tudo em câmera lenta”, e é o que realmente acontece. Assume-se também que o mesmo seja verdade para outros organismos, como fungos e plantas (algumas árvores que estão na Terra há mais de 500 anos teriam uma “perspectiva diferente” dos animais ao seu redor).
Até mesmo a própria “visão de tempo”, como exemplificada no começo desse texto, diferencia de cultura para cultura. Na Índia, por exemplo, a “visão linear” do ponto A e B é invertida. Seria de B para A. É fascinante como todos olham para o mesmo ponto de interrogação de uma forma diferente. Compartilham o mesmo tempo, mas na verdade estão em tempos distintos.
A natureza e cada ser tem o seu próprio tempo (e uma visão única dele). Algumas células vivem 4 horas ou menos. Uma mosca vive cerca de 30 dias. Um humano, cerca de 72 anos. A árvore mais antiga estima-se ter 5 mil anos. A Terra, 4,543 bilhões de anos. A via láctea, 13.61 bilhões.
Isso coloca em perspectiva o tempo (da forma como gostamos de mensurar, de segundos a anos), e é o suficiente para lembrar a humildade que se precisa em relação à natureza e à vida num todo. Compartilhamos um espaço que já existe há muito tempo, e vai continuar existindo por muito mais depois de morrermos. E, enquanto vivemos o agora, o tempo vai passando diferente para cada ser que existe e compartilha o seu momento de existência conosco… Cada um no seu próprio tempo.
Alisson David Frangullys 10/MAR/2022 · 02:05 (GMT-5) texto para o dia · 13/MAR/2022

